28.7.08
Esqueceram que Dantas era o acusado
Maria Inês Nassif
A primeira reação da mídia foi a de se refugiar em seu papel noticiarista: a prisão do banqueiro Daniel Dantas, de sua irmã e de outros parceiros de negócios foi acompanhada pelas lentes dos fotógrafos e dos cinegrafistas, e pelas diligentes anotações dos repórteres. Aí, os acusados eram Dantas e outros integrantes ou parceiros de negócios do Grupo Opportunity. Num segundo momento, os meios de comunicação embarcaram nos protestos do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, que acusou o delegado da PF, Protógenes Queiroz, de sensacionalista, jogou pedras sobre o Ministério Público e soltou todos os presos, exceto os envolvidos diretamente na tentativa de suborno de um delegado. Foi quando os acusados passaram a ser a Polícia Federal e o Ministério Público. Em seguida, sob pressão da mídia, o ministro da Justiça, Tarso Genro, e a direção da Polícia Federal forçaram o afastamento dos delegados responsáveis pelo inquérito. A partir daí, os dedos acusadores da mesma mídia apontaram para o governo, que teria abortado a ação saneadora do delegado Protógenes, antes aquele que cometeu abusos contra acusados.
Exceto no primeiro capítulo da novela Daniel Dantas, o foco da mídia não foi o dos negócios do banqueiro - ou empresário, ou sócio de empresas fantasmas, ou seja lá o que for - que estava sob investigação da polícia, mas os supostos crimes cometidos pela PF, ou uma ação política do governo para esvaziar o inquérito produzido por delegados da PF antes acusados de cometer ilegalidades.
É difícil cobrar um comportamento sempre coerente da mídia: no calor dos fatos, reportar e julgar ao mesmo tempo, sem ter todas as informações, embute um enorme risco de erro. Mas é inegável que as oscilações abruptas de julgamento - e de foco - têm evidentes efeitos colaterais. A desautorização do inquérito da PF em determinado momento - desautorização pura e simples, sem ressalvas - serviu à defesa de Dantas. É certo que o inquérito cometeu erros crassos, misturou estações e interpretou de forma muito equivocada alguns grampos - e perdeu credibilidade ao misturar pessoas envolvidas nos negócios de Dantas com outras que simplesmente foram citadas e não tinham culpa nenhuma no cartório. Mas os meios de comunicação também não separaram as coisas. Primeiro, publicaram tudo como se fosse tudo verdade e, quando se depararam com a dificuldade de comprovar o envolvimento de alguns dos citados, a tendência foi a de generalizar a acusação de "abuso", como se prender alguém que mandou corromper um delegado fosse algo impensável, pelo menos quando essa figura é um banqueiro. Quando resolveram rever sua opinião sobre a polícia - e isso ocorreu quando foi possível acusar o governo de pressão política sobre a instituição - a guinada foi radical: a PF não era mais leviana, mas moralizadora, e era essa PF moralizadora o objeto das pressões de um governo.
Nesses dois extremos, a mídia também foi o veículo da sensacionalização. Se a PF foi sensacional, foi porque o fato dado a conhecimento foi reverberado pela mídia sem qualquer filtro. Daí foi a própria mídia a acusar o sensacionalismo e pressionar por uma posição de governo contra o que considerou abusos. E foram os próprios meios de comunicação quem, à ação corretiva dos superiores do delegado, acusaram sensacionalmente o governo de ter pressionado a instituição a não apurar fatos relativos ao inquérito contra Dantas e grupo.
Nesse processo, o resultado mais palpável foi que em alguns dias Daniel Dantas e suas ações pouco republicanas saíram rapidamente de foco e deram lugar a um debate surrealista sobre o que é um abuso policial e sobre até onde vai a autonomia da PF diante de uma pressão do governo (dada como certa e definitiva) sobre a instituição para não apurar os fatos - que, ao mesmo tempo, segundo a mesma imprensa, fez um inquérito que beirou o abusivo. É surrealista porque em nenhum momento a imprensa analisou o seu próprio papel no caso. E isso inclui o fato de que toda a informação que uma instituição vaza é publicada por algum veículo de comunicação. Se foi um abuso o vazamento de todo o inquérito, inclusive as partes relativas a pessoas que não são parte dos delitos cometidos pelo grupo de Dantas, de quem é o abuso? De quem vazou ou de quem publicou a informação vazada?
Desde a promulgação da Constituição de 1988, o país vive ciclos em que uma ou outra instituição se impõe sobre as demais quando assume como exclusivamente seu o papel de repressão ao crime e de guardião da moralidade. O Ministério Público já esteve nessa situação, assim como os juízes de primeira instância. Agora é a vez da PF. Todas as vezes que uma instituição se excedeu, no entanto, foi porque encontrou eco na mídia. Foram os veículos de comunicação que deram guarida aos sucessivos vazamentos de investigações do MP ou de processos que corriam na Justiça; como hoje dão abrigo aos vazamentos da PF. Não raro, um vazamento de informação acaba justificando um pedido judicial da mesma instituição que fez o vazamento; ou é usado como pressão política contra partidos e governos; ou é exibido como prova de eficiência, em movimentos de valorização corporativa. Portanto, a informação, pretensamente acrítica, não é neutra. Ela tem usos políticos e corporativos.
Não dá para debater os eventuais abusos de instituições sem reconhecer que o jornalismo teve um papel fundamental nos processos de hipertrofia dos poderes de uma ou outra, em determinados períodos. É um engano imaginar que a informação acrítica é neutra. Ela é apenas acrítica - e isso não significa sequer ser independente. O próprio modus operandi de Dantas é prova disso. A farta produção de dossiês para destruir reputações de inimigos foi um fato. Se os jornais e revistas os publicaram, fizeram um favor a Dantas. Esse comportamento está longe de ser neutro. Se um inquérito policial atinge quem não deve atingir, e a imprensa não filtra essa informação, pode lançar o descrédito em todo o inquérito e contribuir para a impunidade dos que devem efetivamente ser punidos. Ou pode abalar as reputações de quem nada deve
22.7.08
O mágico
O mágico abre a porta de sua sala e seu público entra, incerto sobre a natureza de sua magia, o transcurso de sua ação, seu objetivo e se precisam mesmo de encantamento no mundo atual. Mas, hoje, o mágico não vai realizar nenhum truque – não vai adivinhar cartas escondidas ou abrir algemas sem usar chaves ou transformar varinhas em buquês de flores multicoloridos.Trata-se de uma nova magia que é, em seu resultado, muito simples e, em seu processo, muito complicado. Ou o contrário. O encantamento principal consiste em fazer aparecer as palavras desaparecidas, através da estabilização dos sentidos do público (uma família, um casal ou um solitário). Os ouvidos voltam a escutar, as bocas articularão tudo o que a língua lhes permitir dizer, a voz retoma seu poder de ecoar, de um a outro, retomando sua materialidade perdida.
Por isso, o mágico usa palavras mágicas, ouvidas no silêncio da credulidade. Seu desejo é apenasque o público reconheça as suas próprias palavras, acolha-as até que elas completem seu ciclo, realizem sua volta e seu retorno, embarquem na viagem do nada a alguma coisa e, desta, ao nada novamente –de volta ao silêncio.
Trata-se de um mágico que não tira coelhos da cartola ou transforma lenços coloridos em pombas brancas. Não está, tampouco, interessado em serrar mulheres assustadiças no meio. A mágica consiste em transformar os sentidos de sua audiência, em possibilitar à natureza a realização de si própria, encaminhando o fenômeno ao seu plano original: retirar os impedimentos, aquilo que evitava que as palavras tivessem o peso que realmente tem. O mágico quer retirar o público de sua surdez e mudez voluntária.
Afinal, o mágico sabe que todos também realizamos os nossos truques, que todas as palavras são encantadas, capazes de feitiços, mas que sua magia, às vezes falha. Há silêncios intocados e intocáveis para as palavras, mesmo as mais poderosas: a mudez absoluta dos mortos, o silêncio perdido que antecede o primeiro grito dos recém-nascidos, a vastidão do espaço antes de ser capturado pelo verbo – Fiat lux! – este mesmo um feitiço.
O mágico retorna quando o encantamento das palavras adormece. Quando as palavras param de realizar seus feitiços – feitiços de transfiguração, de transformação, de multiplicação, de mutação, ilusionismos sem fim. As folhas de papel nunca são apenas folhas de papel, elas se transformam em cartas não escritas, em mensagens enigmáticas e nunca se apresentam como apenas brancura indizível, não mais que celulose em rede. As paredes da casa são sempre cor, prisão, segredo, limite, rebelião, mas, nunca, um amontoado de tijolos e massa e tinta, não mais que pó. O corpo é operador de prazeres, o lar de sofrimentos, da pulsão que cria o tempo, sempre muito mais que carne sem nome, um empilhado de órgãos num trabalho ritmado.
O mágico questiona, muitas vezes, qual sua função, para que serve sua ação? Se pode receber os agradecimentos do público, que pressente sua magia, mesmo que lhe dê outros nomes (“um anjo”). Afinal, o mágico sabe que a única garantia do encantamento é que o lugar do mágico permaneça, de certa forma, vacante – por isso, seu último ato, o “grand finale” é não mais que um número de desaparecimento, o desaparecimento, sem retorno, de si.
1.6.08
25.5.08
18.5.08
Ação propõe punição contra dois coronéis
Ministério Público pede que Justiça os declare responsáveis por torturas
Marcelo Godoy
O Ministério Público Federal entrou ontem com ação civil pública pedindo à Justiça que declare os coronéis do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra e Audir Santos Maciel responsáveis por torturas, mortes e desaparecimentos e os obrigue a ressarcir à União o dinheiro gasto com indenizações (R$ 7 milhões) a 64 famílias de mortos e desaparecidos políticos entre 1970 e 1976, período em que comandaram o Destacamento de Operações de Informações (DOI) do antigo 2º Exército, em São Paulo.
É a primeira vez que o Ministério Público propõe uma ação civil buscando a punição de militares envolvidos com a repressão política no regime militar. Assinada por seis procuradores, a ação pede ainda à Justiça que as Forças Armadas revelem os nomes de todas as vítimas do DOI, não só os dos mortos e desaparecidos, mas também os das pessoas interrogadas, e informem as circunstâncias das prisões e demais atos de violência. Os procuradores pretendem que sejam tornados públicos os documentos relativos ao DOI. Por fim, desejam que os coronéis sejam proibidos de exercer qualquer função pública.
"Os nomes indicados na ação são os que constam do livro Direito à Memória e à Verdade, da Presidência da República. Em um segundo momento vamos propor ações contra os demais integrantes do DOI", contou a procuradora da República Eugênia Augusta Gonzaga Fávero. Eugênia explicou que a ação civil não impede outras na área militar e criminal contra os réus. Ela sugere que seus colegas da área criminal processem os militares por ocultação de cadáver, pois se trata de crime permanente, ou seja, que ainda é cometido em relação aos desaparecidos. Também propõe que o Ministério Público Militar tente cassar as aposentadorias dos acusados, declarando-os indignos do oficialato."Só com a verdade, a justiça e a reparação se impedirá a repetição do que houve", disse Eugênia. Para Ivan Seixas, da comissão de familiares de mortos e desaparecidos, "pela primeira vez a Justiça terá de tomar uma posição sobre esses crimes".
"Vou esperar a manifestação do juiz sobre a ação antes de me pronunciar, mas é evidente que esta ação tem um peso maior, por ter sido proposta pelo Ministério Público, do que as outras contra meu cliente", disse o advogado Paulo Esteves, que defende Ustra. O coronel responde a duas outras ações movidas por ex-presos e seus familiares. Ele chefiou o DOI de São Paulo de 1970 a 1974. No período, 47 pessoas morreram sob a responsabilidade do órgão.Maciel, o outro acusado, sofreu um acidente vascular cerebral segunda-feira e está internado no Rio. Chefiou o DOI de 1974 a 1976, quando 17 pessoas morreram, entre elas o jornalista Vladimir Herzog. "Hoje ninguém sabe que ele (Herzog) era um jornalista como qualquer outro. Associou-se à sua pessoa uma figura de renome. Prêmio Vladimir Herzog - para um judeu, apátrida, que nem brasileiro era", disse Maciel ao projeto História Oral do Exército.
Do Conversa Afiada (http://www.paulohenriqueamorim.com.br/materias158.asp)
Paulo Henrique Amorim – Eu vou conversar agora com Amélia Telles. Ela é da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos. Amélia, você certamente viu essa notícia de que o Ministério Público Federal resolveu processar o coronel Ustra e mais um outros suspeito de ter sido torturador e obriga-los a devolver à União os recursos que a União pagou às vítimas de tortura durante os anos militares. Você viu isso?
Amélia Telles – Sim. Eu estou a par dessa ação promovida pelo Ministério Público Federal, não é isso?
Paulo Henrique Amorim – Isso.
Amélia Telles – Eu estou a par sim.
Paulo Henrique Amorim – Você foi torturada pelo Coronel Ustra?
Amélia Telles – Eu fui torturada pelo coronel Ustra. Eu acho extremamente importante que o Ministério Público, na defesa dos direitos humanos do povo brasileiro, tome essa iniciativa. Porque é preciso haver uma reflexão da história desse país, uma reflexão da tortura institucionalizada que foi na época da ditadura militar, para que isso nunca mais aconteça no nosso país. E eu fui torturada sim pelo coronel Ustra, inclusive eu sou uma das autoras de uma Ação Declaratória, junto ao Fórum de São Paulo, para que seja declarado o coronel Ustra como torturador, que seja declarado que o coronel Ustra é um torturador ou foi um torturador.
Paulo Henrique Amorim – Você foi torturada quando e sob que argumento?
Amélia Telles – Eu fui torturada no final de 1972, início de 1973 porque eu era uma militante comunista...
Paulo Henrique Amorim – De que organização?
Amélia Telles – Era do Partido Comunista do Brasil, que era um partido ilegal na época, era um partido que vivia clandestino, porque a ditadura proibiu os partidos políticos. E eu trabalhava na imprensa do partido e por isso eu fui presa, torturada para denunciar os contatos que eu teria como militante da imprensa, contatos importantes para o partido. Quer dizer que eu deveria entregar os nomes das pessoas com as quais eu me relacionava para que eles prendessem também essas pessoas ou para que eles torturassem também essas pessoas. Foi nessa situação que eu fui presa e torturada.
Paulo Henrique Amorim – Em que pé está sua Ação Declaratória contra o coronel Ustra?
Amélia Telles – A nossa ação já está nas alegações finais, já foram apresentadas nessa semana as alegações finais, tanto da parte da autoria da ação, quanto da parte dos acusados, ou melhor, o acusado, que é o Coronel. Então acredito que em dois ou três meses já estará concluída essa Ação Declaratória.
Paulo Henrique Amorim – E se o coronel Ustra for condenado nessa Ação Declaratória, o que vai acontecer com ele?
Amélia Telles – Ele vai passar a ter um título de torturador. É uma declaração de que ele é um torturador. Essa é a meta final dessa ação. É uma Ação Declaratória. O Estado reconhece que dentre os quadros dos seus funcionários teve o coronel Ustra como torturador.
Da Folha
CLÁUDIA COLLUCCI, RICARDO WESTIN
Pelo menos nove entidades brasileiras de defesa de doentes são financiadas por fabricantes de remédios, revela um estudo recém-concluído da ONG (organização não-governamental) americana Essential Action.
Uma entidade que representa pacientes com linfoma e leucemia (tipos de câncer) com sede em São Paulo, por exemplo, recebeu R$ 1,5 milhão de oito multinacionais no ano passado -60% do orçamento total.O documento afirma que a relação financeira pode fazer com que "entidades aparentemente independentes" deixem de lado os interesses dos pacientes e adotem uma agenda "consoante com as prioridades da indústria".
No Brasil, os dois lados admitem a transferência de dinheiro, mas negam que isso interfira na independência das entidades de pacientes. Para chegar à conclusão, a Essential Action, que se dedica a estudar a saúde pública, analisou um manifesto internacional a favor da manutenção do sistema de patentes de remédios. Das 110 entidades de doentes que assinam o documento, 61 têm ligação com a indústria farmacêutica ou com fabricantes de equipamentos médicos, segundo a ONG. Nesse manifesto, os pacientes seguem o discurso dos laboratórios, que são contrários à licença compulsória de patentes. Esse expediente, que acaba com o monopólio da fabricação, é adotado quando o governo de um país pobre entende que está pagando muito caro por certas drogas.
O manifesto foi remetido à OMS (Organização Mundial da Saúde), que há dois anos estuda mudanças no sistema de proteção de patentes -incluindo a licença compulsória- e criou um grupo de trabalho intergovernamental para analisar formas de ampliar o acesso da população a medicamentos. O texto final deve ser votado nesta semana, durante a Assembléia Mundial da Saúde. Se aprovado, a OMS poderá dar assistência a países que queiram quebrar patentes. Países emergentes, como o Brasil, e fabricantes de genéricos pressionam para que o documento seja aprovado. Já multinacionais farmacêuticas tentam impedir o acordo.
Das 61 entidades signatárias que mantêm relações com a indústria, nove são brasileiras. Elas defendem hemofílicos, diabéticos e pacientes com câncer e hepatite. Jim Donahue, um dos responsáveis pelo estudo da Essential Action, diz que o problema não está propriamente no financiamento farmacêutico, mas no fato de essa relação não ser tornada pública. "As entidades precisam revelar quem são seus financiadores, que interesses estão defendendo, deixar as coisas claras", defende. O presidente do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde), Osmar Terra, lembra que o milionário mercado de medicamentos é movimentado em grande parte pelas compras dos governos."É natural que se forme um lobby. O problema é que a indústria usa algumas associações de doentes para pressionar [o governo a comprar remédios]. Não há ninguém melhor que o doente para ser a vítima", afirma Terra, que também é secretário de Saúde do Rio Grande do Sul.
O estudo da Essential Action chegou à OMS, na Suíça, no início deste mês. Segundo a farmacêutica Gabriela Costa Chaves, do grupo de trabalho brasileiro sobre propriedade intelectual, a revelação causou "surpresa" na equipe."Agora estamos triplamente atentos. A questão do conflito de interesse é muito sensível quando a gente lida com medicamentos. O debate é polarizado. Você tem que definir de que lado está. Se recebe recursos da indústria, essa discussão está contaminada", afirma. Para o pesquisador Mario Scheffer, as ONGs têm autonomia para fazer as parcerias que desejarem, mas devem permanecer isentas. "É muito complicado que uma ONG que orienta os pacientes a ingressar com ação judicial para reivindicar um medicamento novo ou que atua junto ao governo para a introdução do remédio no SUS seja financiada pela indústria que fabrica esse remédio."
24.4.08
compondo uma crítica a uma psicanálise normativa e autoritária
Primeiro, por que normativa e por que autoritária? Normativa porque se coloca num papel de ignorar as mudanças históricas, julgando-as como boas ou más não em relação ao sujeito histórico, mas em relação apenas aos valores psicanalíticos; autoritária porque parece atraída a posições de saber-poder inquestionáveis – nem mesmo o paciente/cliente/analisando pode questioná-las.
Li a entrevista do Melman e sua colocação, alarmista, de que a “instituição familiar” está desaparecendo. Bom, a “instituição familiar” está sendo ameaçada desde sempre – pelo menos, este é um discurso já antigo e, na maioria das vezes, utilizado com vistas à repressão e ao controle (“a pílula ameaça a instituição familiar”, “a liberdade sexual ameaça a instituição familiar”, “o casal homossexual que quer adotar uma criança e, logo, fazer uma família, ameaça a instituição familiar”). Me pergunto se a “instituição familiar” não deve mesmo ser ameaçada: afinal, o que ganhamos todo este tempo com instituições familiares não-ameaçadas? Se a esta é a primeira vez na história que a instituição familiar está sendo ameaçada, posso colocar na conta da instituição familiar não-ameaçada o século XX (com duas guerras mundiais, Vietnã e Auschwitz)?
Isto se a institução familiar estiver sendo, de fato, ameaçada, o que eu duvido muito. Talvez não se devesse perguntar porquê a sociologia e a antropologia não estão interessadas neste “fenômeno”, mas porquê a psicanálise ciclicamente produz discursos cheios de pânico e alarme sobre a possível desaparição da família. Talvez eu possa adiantar alguma coisa simples: acho que antropologia e sociologia não estão interessadas no “dissolução do grupo familiar” porque desde Levy-Strauss, que bebeu nas obras freudianas, estas disciplinas perebem: o parentesco é uma estrutura essencial dos grupos humanos, do qual a família, conforme a entendemos no ocidente, é apenas uma conformação possível. Não é a “instituição familiar” que está desaparecendo, é a família que está tomando outras formas, são os espaços de socialização que estão se deslocando. Não entendo por que isto deve ser uma coisa negativa. Nem Édipo nem a Lei dependem de um pai carnal – basta ver a força da Lei (em termos psicanalíticos) em meios completamente sem lei (jurídica), como o tráfico ou as prisões (a força da Lei, mesmo que numa ética brutal; a força da Lei protegendo exatamente esta família que se diz em vias de extinção).
Parece haver aqui uma equivalência entre “instituição familiar” – seja lá o que Melman entende por isso – e Édipo, entre a “instituição familiar” e a Lei. Freud fez uma teoria sobre a estruturação psíquica, com marcos na história individual do sujeito. Acho que estes marcos podem mudar – especialmente porque já estão mudando há décadas – mas a estrutura psíquica se mantém. Melman dá a impressão de que, se ele pudesse parar a roda da história, o faria, dizendo que o faz pelo bem da humanidade – e não a partir de um lugar de poder que a psicanálise se dá.
Acho que nosso futuro é sombrio, mas não por conta de mudanças na instituição familiar (já que não acredito que esta esteja desaparecendo). Se há uma ameaça a ela, deveríamos nos perguntar de onde vem esta ameaça, o que a sustenta, se não é uma ameaça devida, se não pode advir disso uma reconfiguração mais positiva, menos repressiva de forças. E, antes de tudo, como pessoas que refletem através dos moldes da psicanálise, nos perguntar por que nos apegamos tanto a esta “instituição familiar” da forma como a conhecemos.
Isto é o que defino como normativo: se determina o certo e o errado para o outro, numa postura de pitonisa moral, profetizando futuros pessimistas à humanidade, em previsões que se não tem como avalizar. Como aquela psicanálise que repete ad infinitum: “os pacientes de hoje em dia não conseguem simbolizar”, sem perceber que, se isso acontece, é porque algo está acontecendo fora dos limites do consultório e é preciso escutá-lo.
De outro lado, há este autoritarismo implícito na condescendência com que Melman diz: “para os outros (não psicanalistas), eu só posso desejar boa sorte”. Para um saber que se vê como o legítimo, há uma estranha preocupação da psicanálise em desqualificar todos os outros saberes, quase que um ‘esporte psicanalítico’ (a crítica ao behaviorismo, aos medicamentos psicofarmacológicos, às psicoterapias breves, nesta ordem). Afinal, que autonomia é esta que a psicanálise oferece ao sujeito? Ele é autônomo, desde que tenha escolhido a psicanálise? Não é uma decisão legítima do sujeito, pautada pelo seu sofrimento psíquico e pela ação da transferência, se ele busca este ou aquele psicanalista, uma análise freudiana ou lacaniaca, a gestalt-terapia ou o behaviorismo? Cabe a psicanálise determinar ao sujeito o que ele deve fazer e não apenas oferecer uma outra opção, uma possibilidade diferente, lembrando que a responsabilidade da escolha é dele? Que retirar esta responsabilidade é infantilizá-lo?
Enfim, são questões que estão me incomodando, questões que não são críticas individuais (nem conheço o trabalho do Melman e questiono sempre, sempre, sempre a boa fé da Veja), mas críticas que atravessam práticas e discursos disseminados por vários que se autorizam pela psicanálise em suas falas e seus gestos.
Abraço,
J.
Link para entrevista de Charles Melman à Revista Veja: http://pontolacaniano.wordpress.com/2008/04/19/melman-proxima-edicao-de-veja/
20.4.08
A turba do pega-e-lincha
CONTARDO CALLIGARIS, na Folha
NA ÚLTIMA sexta-feira, passei duas horas em frente à televisão. Não adiantava zapear: quase todos os canais estavam, ao vivo, diante da delegacia do Carandiru, enquanto o pai da pequena Isabella estava sendo interrogado.
O pano de fundo era uma turba de 200 ou 300 pessoas. Permaneceriam lá, noite adentro, na esperança de jogar uma pedra nos indiciados ou de gritar "assassinos" quando eles aparecessem, pedindo "justiça" e linchamento.
Mais cedo, outros sitiaram a moradia do avô de Isabella, onde estavam o pai e a madrasta da menina.
Manifestavam sua raiva a gritos e chutes, a ponto de ser necessário garantir a segurança da casa. Vindos do bairro ou de longe (horas de estrada, para alguns), interrompendo o trabalho ou o descanso, deixando a família, os amigos ou, talvez, a solidão -quem eram? Por que estavam ali? A qual necessidade interna obedeciam sua presença e a truculência de suas vozes?
Os repórteres de televisão sabem que os membros dessas estranhas turbas respondem à câmera de televisão como se fossem atores. Quando nenhum canal está transmitindo, ficam tranqüilos, descansam a voz, o corpo e a alma. Na hora em que, numa câmera, acende-se a luz da gravação, eles pegam fogo.
Há os que querem ser vistos por parentes e amigos do bar, e fazem sinais ou erguem cartazes. Mas, em sua maioria, os membros da turba se animam na hora do "ao vivo" como se fossem "extras", pagos por uma produção de cinema. Qual é o script?
Eles realizam uma cena da qual eles supõem que seja o que nós, em casa, estamos querendo ver. Parecem se sentir investidos na função de carpideiras oficiais: quando a gente olha, eles devem dar evasão às emoções (raiva, desespero, ódio) que nós, mais comedidos, nas salas e nos botecos do país, reprimiríamos comportadamente.
Pelo que sinto e pelo que ouço ao redor de mim, eles estão errados. O espetáculo que eles nos oferecem inspira um horror que rivaliza com o que é produzido pela morte de Isabella.
Resta que eles supõem nossa cumplicidade, contam com ela. Gritam seu ódio na nossa frente para que, todos juntos, constituamos um grande sujeito coletivo que eles representariam: "nós", que não matamos Isabella; "nós", que amamos e respeitamos as crianças -em suma: "nós", que somos diferentes dos assassinos; "nós", que, portanto, vamos linchar os "culpados".
Em parte, a irritação que sinto ao contemplar a turma do "pega e lincha" tem a ver com isto: eles se agitam para me levar na dança com eles, e eu não quero ir.
As turbas servem sempre para a mesma coisa. Os americanos de pequena classe média que, no Sul dos Estados Unidos, no século 19 e no começo do século 20, saíam para linchar negros procuravam só uma certeza: a de eles mesmos não serem negros, ou seja, a certeza de sua diferença social. O mesmo vale para os alemães que saíram para saquear os comércios dos judeus na Noite de Cristal, ou para os russos ou poloneses que faziam isso pela Europa Oriental afora, cada vez que desse: queriam sobretudo afirmar sua diferença.
Regra sem exceções conhecidas: a vontade exasperada de afirmar sua diferença é própria de quem se sente ameaçado pela similaridade do outro. No caso, os membros da turba gritam sua indignação porque precisam muito proclamar que aquilo não é com eles. Querem linchar porque é o melhor jeito de esquecer que ontem sacudiram seu bebê para que parasse de chorar, até que ele ficou branco. Ou que, na outra noite, voltaram bêbados para casa e não se lembram em quem bateram e quanto.
Nos primeiros cinco dias depois do assassinato de Isabella, um adolescente morreu pela quebra de um toboágua, uma criança de quatro anos foi esmagada por um poste derrubado por um ônibus, uma menina pulou do quarto andar apavorada pelo pai bêbado, um menino de nove anos foi queimado com um ferro de marcar boi. Sem contar as crianças que morreram de dengue. Se não bastar, leia a coluna de Gilberto Dimenstein na Folha de domingo passado.
A turba do "pega e lincha" representa, sim, alguma coisa que está em todos nós, mas que não é um anseio de justiça. A própria necessidade enlouquecida de se diferenciar dos assassinos presumidos aponta essa turma como representante legítima da brutalidade com a qual, apesar de estatutos e leis, as crianças podem ser e continuam sendo vítimas dos adultos.
10.4.08
"A vida como experiência dela mesma"
Eu voltara, estava vivo.
Contudo, uma tristeza comprimia-me o coração, um desconforto surdo e pungente. Não era um sentimento de culpa, de jeito nenhum. Nunca entendi por que era preciso sentir-se culpado por ter sobrevivido. Aliás, eu não tinha sobrevivido de verdade. Não tinha a certeza de ser um verdadeiro sobrevivente. Tinha atravessado a morte, ela fora uma experiência de minha vida. Há idiomas que têm uma palavra para esse tipo de experiência. Em alemção diz-se Erlebnis. Em espanhol: vivencia. Mas não há palavra francesa para captar de uma só vez a vida como experiência de si mesma. Temos que empregar perífrases. Ou empregar a palavra 'vivido', que é aproximativa. E contestável. É uma palavra chocha e frouxa. Antes de mais nada, e sobretudo, é passivo, o vivido. E depois, é no passado. Mas a experiência da vida, que a vida faz dela mesma, de si mesma enquanto está vivendo, é ativa. E é no presente, necessariamente. Quer dizer que ela se alimenta do passado para se projetar no futuro.
Seja como for, não era um sentimento de culpa que me apunhalava. Esse sentimento é apenas derivado, vicariante. A angústia nua de viver é-lhe anterior: a angústia de ter nascido, saído do nada confuso por um acaso irremediável. Não há nenhuma necessidade de ter conhecido os campos de extermínio para conhecer a angústia de viver.
Eu estava vivo, portanto, de pé, imóvel, na esquina da avenida Bel-Air com a praça de la Nation."
7.4.08
1.4.08
Une psychose lacanienne – Présentation de Malades
Mr. Primeau: Je ne parviens pas à me identifier.
Dr. Lacan: Vous ne vous identifiez pas ? Expliquez-moi ce qui se passe.
Mr. Primeau: Je me sens un peu detaché par rapport au langage. C’est une division entre le rêve et le réalité. Il y a une équivalance entre deux... deux mondes de mon imagination, et pas de prédominance. Entre le monde et le realité – ce qu’on appelle réalité – se produit une division. Je me trouve constamment du côte de l’imaginaire que s’écoule.
Dr. Lacan: Parlez-moi de votre nom. Parce que Gérard Primeau n’est pas...
Mr. Primeau: Oui, je l’avais décomposé avant de connaître Raymond Roussel... Il y 20 ans que j’étudiais les mathématiques supérieures... Puis je me suis interessé aux faits physiques, et on parlait beaucoup de strates et sous-strates intellectuelles. Le langage pourrait présenter ces mêmes assises. Par exemple, mon nom se décomposa en GEAI, l’oiseau, et RARE, la rareté.
Dr. Lacan: Geai rare...
Mr. Primeau: PRIME AU (Premier au). J’avais decomposé mon nome avec une telle lucidité, que je l’avais « mis en morceau » pour créer. Ce que je dois vous dire c’est... (silence)
28.3.08
27.3.08
Voltando, lentamente
Antônio Cícero
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.
Do amor e do desejo ou Conversas com Luis, o gigante
As experiências do desejo admitem a ambigüidade própria aos desejos, a flutuação entre as fantasias, o deslizamento entre os objetos; as histórias de amor, não. Os lutos do amor e do desejo podem ser mais rápidos ou demorados, ou não terminarem nunca – uma escolha implica sempre em algo que é deixado para trás, perdido no desvão não vivido de uma vida, num vôo não alçado, implica numa queda (queda, necessária, de si).
O meu desejo ameaça o outro e o desejo do outro me ameaça. O amor do outro pode me envolver, mas nunca pode ser o meu amor – este, eu devo tê-lo em mim. O desejo é, sempre, aquilo que ignoro de mim mesma, que me põe suscetível, desarmada, que puxa o tapete, que puxa os sapatos sob os passos e arrisca uma dança própria. Enquanto o amor é aquilo que eu construo para nós (sempre eu e mais um), o melhor de mim que eu empenho, que eu faço penhor e que espero nunca ter que resgatar.
Não há solução para o desejo. Há negociação para o amor.
O desejo pode ser a minha realidade mais perigosa, menos salvaguardada, que coloca fora das faixas de proteção, dos escudos, dos guarda-chuvas para os dias de vento e brisa. O amor pode me acolher numa realidade mais segura, porém infinitamente mais dolorosa porque mais preciosa, inestimável - uma doença da qual nunca estaremos completamente curados (mesmo quando a história de amor acaba). O desejo desafia o amor e vice-versa, numa luta de morte. Quem perde, quem ganha.
A cada encontro, a cada amor, uma nova forma de relação acontece, numa síntese química. Como nos conta Saramago, em toda relação, há três pessoas: eu, você e um terceiro - pessoa formada por nós dois, pelo nosso encontro, por porções nossas reunidas (nem sempre as porções que escolhemos). Será esta nova pessoa, surgida unicamente deste amor, tão mortal quanto este amor, capaz de ser original? Honesta? Dulcíssima ou dolorosa? Rígida, rigososa?...
Mas pelo desejo do outro eu não decido, não disponho sobre o que é dele, não luto por ele suas batalhas, cada um deve se responsabilizar por si -
deve se lançar nas sendas de seu desejo e se perder,
fazer as mais altas apostas e perder,
guardar bem guardado e perder,
até ser capaz de olhar no horizonte e deixar perder
- o desejo é sempre excessivo, inconveniente, mal-educado e boca suja.
A questão: o que é uma história autêntica de amor, uma autêntica experiência de desejo? Será, simplesmente, render-se a esquemas antigos e anteriores, que suprimem as ameaças e também o conhecimento de si? Será um buscar aflito e aflitivo pelo novo, outro trator? Ou será um misto de resignação e coragem, por assim dizer? Eu me sujeito aos meus limites e às minhas dores, à minha capacidade de prazer; me rendo, sabendo, entretanto, o quão é doloroso e árduo é querer estar assim tão próximo de si.
16.3.08
II Colóquio Internacional Escrita e Psicanálise
Agosto, 2008 - Florianópolis, SC
Link: http://www.nep.ufsc.br/coloquio/index1/Index1.html



