
29.7.07
21.7.07
O acidente da TAM, a mídia e o psicanalista...
"A seguir, seleciono alguns trechos do que saiu na mídia, tudo com meus comentários em seguida:
17/07 - Folha Online, “Pensata”, Eliane Cantanhêde“Quando vai ser o próximo? - A cada nova crise nos aeroportos, a cada novo movimento dos controladores, a cada derrapada de avião, a cada pane no sistema de rádio ou nos radares, uns sempre diziam e outros sempre pensavam: “Quando vai ser o próximo acidente?” (…) As circunstâncias eram todas desfavoráveis: chovia, a pista estava escorregadia, a reforma mal (em duplo sentido) terminou e, afinal das contas, não pode ser pura coincidência que o maior acidente da história acontecer exatamente em Congonhas, no dia seguinte à derrapagem de um pequeno avião da Pantanal.”
Eliane não esperou para escrever; seu texto foi publicado no mesmo dia do acidente (17/07). A morte de tantas pessoas, sem dúvida, mexe com a emoção de todos. Mas não se pode publicar um texto, tratando de questão eminentemente técnica, sem pelo menos um mínimo de apuração.
Na pressa de culpar a pista, Eliane diz que “não pode ser pura coincidência” o fato de ter havido uma derrapagem no mesmo aeroporto, no dia anterior. E como a jornalista explica o fato de que um avião da TAM, exatamente um Airbus, ter pousado com sucesso cinco minutos antes do acidente, na mesmíssima pista (e tantos outros aviões que pousaram sem qualquer problema)? Isso sim é que “não pode ser pura coincidência”.
Continuemos:
19/07 - Folha de São Paulo, “Cotidiano”, Francisco Daudt - psicanalista e colunista da “Revista da Folha”“O Que Ocorreu Não Foi Acidente, Foi Crime - Gostaria imensamente de ter minha dor amenizada por uma manchete que estampasse, em letras garrafais, “GOVERNO ASSASSINA MAIS DE 200 PESSOAS”. O assassino não é só aquele que enfia a faca, mas o que, sabendo que o crime vai ocorrer, nada faz para impedi-lo. O que ocorreu não pode ser chamado de acidente, vamos dar o nome certo: crime. (…) Sinto pena de não ter estado na abertura do Pan, de não ter engrossado aquelas bem merecidas vaias. Talvez o presidente não se importe tanto, afinal, quem viaja de avião não é beneficiário de sua bolsa-esmola, não faz parte do seu particular curral eleitoral cevado com o dinheiro que ele arranca de nós (…) O governo sairá da inação, da omissão criminosa? Alguém será preso, punido por todas essas coisas? Infelizmente, duvido. Talvez condenem a mim, por ter deixado o coração explodir. Pagarei o preço alegremente”
Se o psicanalista se meteu a ser “expert” em aviação, sinto-me no direito de tentar analisá-lo. Que negócio é esse de ter a “dor amenizada por uma manchete que estampasse (…) GOVERNO ASSASSINA MAI DE 200 PESSOAS”?
O articulista sentiria menos dor? Isso resolveria parte de seu problema? Não sei se é preciso ser freudiano, lacaniano, ou algum “ano”, para notar que o articulista fala menos em fatos e mais em sentimentos.
Quanto ao episódio das vaias, ele sente “pena de não ter estado na abertura do Pan”. E ao chamar o Bolsa-Família de Bolsa-Esmola, claro, deixa claríssima sua posição nas trincheiras partidárias. Não precisaria disso, mas o forte de Daudt não é seu estilo.
Por fim, diz que pagará “alegremente” o eventual preço de ser preso, por conta do que dissera em seu artigo. Viram só? Primeiro, ele teria sua dor amenizada por uma manchete. Depois, sentiu pena por não ter vaiado Lula e diz que pagaria o preço (de uma condenação) com alegria.
Sentimentos, e não fatos. Opiniões pessoais, praticamente íntimas. E não há nada mais íntimo que um sentimento, ora pois! O maior jornal do país, na hora de analisar um triste fato repleto de circunstâncias técnicas, usa como articulista alguém que não emite apenas sua “opinião”, mas sim expõe “sentimentos” e predileções e oposições político/partidárias.
E o psicanalista (que definitivamente não é jurista) se coloca numa situação complicada, ao dizer que não houve acidente, mas sim um “crime”. Imputou um crime, portanto, a alguém.
Mais um trechinho (na verdade, um post “na íntegra”):
19/07 - Veja, blog do Reinaldo Azevedo“Crime Estratégico - Todo o dinheiro gasto pelo governo federal no aeroporto de Congonhas, e não foi pouco, evidencia a falta de planejamento na área. Na ponta do lápis, Congonhas deveria ser paulatinamente desativado. Em vez disso, resolveram incrementá-lo. Investiu-se na suntuosidade do prédio, embora as pistas sejam universalmente reconhecidas como inseguras. Nunca antes nestepaiz…”
Ressaltemos apenas o último trecho: “AS PISTAS SEJAM UNIVERSALMENTE RECONHECIDAS COMO INSEGURAS”. Hm… “Universalmente”? A qual “universo” Reinaldo se refere?
Vejamos o que publicou HOJE, em seu blog, Fernando Rodrigues (Folha de São Paulo):
“Parecer Técnico do IPT Não Encontra Problemas Na Pista Principal de Congonhas - O parecer técnico parcial nº12792-301-ii realizado pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT) na pista principal do aeroporto de Congonhas não identificou restrições ao uso da mesma. O documento é datado de ontem (19/07/2007). O resultado desse parecer é baseado, entretanto, em dados coletados até o dia 18 de julho de 2007 e também antes do acidente de terça-feira.”
E agora, Reinaldo Azevedo? Os técnicos do IPT, do Governo do Estado de São Paulo, que é gerido pelo PSDB, emitiram parecer segundo o qual não há problemas na pista principal. Repita-se: NÃO HÁ PROBLEMAS.
O blogueiro, à medida que surgia algum novo dado que prejudicava o uso oposicionista do acidente, dizia ter apenas uma única certeza: a pista seria imprópria para o pouso na chuva. Agora vem o IPT, órgão de um governo estadual do PSDB, e diz que a pista não tinha problema algum.
De um lado, Reinaldo Azevedo, sem sair de sua cadeira e formado em letras e jornalismo; de outro, técnicos do IPT, com formação técnica adequada, que visitaram o local e realizaram exames e análises. Quem parece mais qualificado para falar sobre a qualidade da pista?
Pois é… Mas temos o seguinte: de seu lado, Reinaldo fala em um conhecimento “universal”. Já os técnicos do IPT, mediante os procedimentos adequados, emitem um parecer sem esses adjetivos todos. A comparação não é apenas desigual. É desleal.
Depois das notícias sobre o problema com o “airbus”, bem como diante desse parecer do IPT, fica muito frágil a tese (que parecia lógica e claríssima, na emoção do momento) da pista como fator predominante (ou mesmo exclusivo) para o acidente.
Mas uma parcela considerável da mídia, antes de explicar e analisar, preferiu partir para o discurso político/partidário. O psicanalista citado, por exemplo, reuniu no texto uma série de escândalos que não têm relação entre si, falou até das vaias da abertura do Pan, para dizer que afinal de contas houve um “crime”. É um sofisma partidário de péssimo gosto (e detestável qualidade intelectual).
Nada disso diminui a dor das famílias que perderam seus entes queridos, tanto menos trará de volta aqueles que se foram no terrível acidente. A imprensa deveria deixar o populismo de lado nessas horas; e isso também vale para seus articulistas menos preocupados com a isenção.
Depois de um acidente desse tipo, qualquer um sabe muito bem o que o “povo quer ler”. O povo quer um culpado para ser apedrajado, o povo quer gritar em protesto contra alguém. O mais fácil – e leviano – a se fazer é oferecer um suposto algoz para que todos o malhem. Isso vende jornal, isso faz com que o texto seja reproduzido em N e-mails, isso sacia a quase escatológica sanha de uma parcela da população.
O mais difícil e correto, porém, é esperar laudos e demais fatores para começar a emitir algum tipo de juízo de valor minimamente adequado. Fernando Rodrigues deu uma aula de jornalismo para alguns colegas da Folha, e mostrou com muita clareza quão diferente é seu ofício daquele praticado por Reinaldo Azevedo.
E o psicanalista… Bom, esse daí só nos fez entender aquele negócio de que tais profissionais devem permanecer calados, aguardando o desenrolar dos fatos, a fim de colher elementos bastantes para uma análise razoável."
1.7.07
Clientes Especiais
Maria Rita Kehl (especial para a Folha de São Paulo)
Antes de mais nada, como já se notou, existe o viés social.
De um lado existem "jovens" que ocasionalmente cometem atos delinqüentes. É o caso de Júlio, Leonardo e seus colegas, espancadores da Barra [cinco acusados de agredir e roubar uma empregada doméstica na zona oeste do RJ no domingo passado]. Inspiram-nos cuidado semelhante ao que dispensamos aos nossos filhos. Tentamos compreender: o que aconteceu? (Psicólogos são chamados a justificar.)
E existem os outros, os que já são bandidos antes de chegar (quando chegam) diante do juiz.
A execução sumária confirma, a posteriori, o veredito que a imprensa divulga sem questionar: "A polícia matou 18 "suspeitos" em confrontos com supostos "bandidos'"... Ninguém persegue o resultado das investigações sobre as tantas chacinas que caem no esquecimento.
O que distingue uns dos outros é o número do CEP: na Barra, nos Jardins [em SP], no Plano Piloto [em Brasília] vivem os jovens.
Os outros, adultos anônimos desde os 14, vêm de bairros que não figuram no mapa: "Periferia é periferia em qualquer lugar".
Qualquer delegado de bom senso percebe na hora a diferença. Se a cor da pele confirmar o veredito, melhor. A sociedade, representada pelo dr. Ludovico Ramalho, pai de Rubens Arruda, se tranqüiliza: as travessuras dos "jovens", adultos infantilizados das classes A e B, não ameaçam a segurança da gente de bem.
Espancaram uma doméstica, mas pensavam que fosse prostituta. Ah, bom.
Nos bairros onde vivem os jovens não há solidariedade com os chacinados das favelas, com os executados a esmo em Queimados [na noite de 31 de março de 2005, 29 pessoas foram assassinadas em diferentes pontos dos municípios de Nova Iguaçu e Queimados, na Baixada Fluminense], com os meninos abatidos na praça do Jaraguá, em SP [em 6/5, quando sete pessoas foram mortas em praça da zona norte da capital].
Os movimentos "pela paz" nunca se manifestam por eles.
Ninguém de fora
Mas, quanto mais o Brasil maltrata seus pobres, quanto mais a polícia sai impune dos excessos cometidos contra os anônimos cujas famílias não protestam por temor de represálias, quanto mais o país confia na lógica do "nós cá, eles lá", mais o gozo da violência se dissemina entre todas as classes sociais.
Para pacificar o país, seria preciso redesenhar o mapa do respeito e da civilidade de modo a não deixar ninguém de fora.
Uma sociedade que assiste sem se chocar, ou sem se mobilizar, ao extermínio dos pobres -bandidos ou não- está autorizando o uso da violência como modo de resolução de conflitos, à margem da lei.
Tomemos o ato de delinqüência cometido pelos meninos "de família" da Barra, no Rio. Que a culpa seja dos pais, vá lá. As declarações do pai de Rubens Arruda são reveladoras. Não que ele não transmita valores a seu filho.
Mas serão valores relacionados à vida pública? Não terá o dr. Ludovico educado seu filho para "levar vantagem em tudo"? Esse pai não admite que o filho seja punido pelo crime que cometeu.
Há aqueles que não admitem que a escola reprove o jovem que tirou notas baixas, os que ameaçam o síndico do condomínio que mandou baixar o som depois das 22h etc.
Olham o mundo pela ótica dos direitos do consumidor: se eu pago, eu compro. Entendem seus direitos (mas nunca seus deveres) pela lógica da vida privada, como fizeram as elites portuguesas desde a colonização.
Quem disse que os jovens não lhes obedecem? Obedecem direitinho. Param em fila dupla, jogam lixo nas ruas, humilham os empregados -igualzinho a seus pais.
Vez por outra, quando os pais precisam impor alguma interdição, já não se sentem capazes.
O que nos coloca a pergunta: que valores, que representações, no imaginário social, sustentam o exercício necessário da autoridade paterna? Em nome de que um pai ou uma mãe, hoje, se sentem autorizados a coibir ou mesmo punir seus filhos?
A autoridade não é um atributo individual das figuras paternas. A autoridade dos pais -e da escola, que também anda em apuros (quem viu "Pro Dia Nascer Feliz", de João Jardim?) -deriva de uma lei simbólica que interdita os excessos de gozo.
Uma lei que deve valer para todos. O pai que "tem moral" com seus filhos é aquele que também se submete à mesma lei, traduzida em regras de civilidade, de respeito e da chamada boa educação.
Cliente especial
Mas em nome de que, no imaginário social, a lei simbólica se transmite? Já não falamos em "Deus, pátria e família", significantes desmoralizados em nome dos quais muitos abusos foram cometidos, sobretudo no período de 1964 a 1980.
No lugar deles, no entanto, que outros valores ligados à vida pública foram inventados pela sociedade brasileira? Em nome de que um pai que diz "não pode" responde à inevitável pergunta: "Não posso por quê"?
Ocorre que a palavra de ordem que organiza nossa sociedade dita de consumo (onde todos são chamados, mas poucos os escolhidos) é: você pode. Você merece. Não há limites pra você, cliente especial.
Que o apelo ao narcisismo mais infantil vise a mobilizar apenas a vontade de comprar objetos não impede que narcisismo e infantilidade governem a atitude de cada um diante de seus semelhantes -principalmente quando o tal semelhante faz obstáculo ao imperativo do gozo.
O que queriam os rapazes que espancaram Sirlei Dias de Carvalho Pinto? Um celular usado? Um trocado para comprar mais um papel? Descontar a insegurança sexual?
"No limits", diz um anúncio de tênis. Ou de cigarro, tanto faz. E os meninos obedecem. No fundo, são rapazes muito obedientes. Se a ordem é passar dos limites, pode contar com eles.
derevo ainda...
[Grupo Derevo, espetáculo “Ketzal”, MIT-CCBB, Brasilia, 24 de junho de 2007]
26.6.07
Sobre Angra
"Angra III: um alerta nuclear
BERNARDO KUCINSKI
Depois de muita hesitação, o governo finalmente optou pela retomada da construção de Angra III. Predominou a lógica dos grupos de interesse, todos favoráveis à retomada. São pela retomada os militares, fascinados pelo poder que a energia nuclear lhes traz, os industriais preocupados com o risco de um apagão, os cientistas, pelo prestígio e oportunidades novas na pesquisa e no comando do processo, os fornecedores de equipamentos e as empreiteiras, por motivos óbvios, e a população de Angra, seduzida em audiências públicas pela perspectiva de criação de alguns milhares de novos empregos de alta qualidade.
O povo, como se vê, não opinou diretamente. Nem o povo é um grupo de interesses. Não se fez um referendo, nem nada. O Congresso não foi consultado. Nenhum candidato à presidência colocara a questão nuclear em sua plataforma eleitoral. A população da Angra entra na história como grupo de interesse especifico, e não como amostragem de uma opinião pública nacional. O Ministério do Meio Ambiente se opôs em nome dos “interesses difusos” do povo, mas quem garante que o MMA representa uma opinião pública?
Nada disso é novidade. Os programas nucleares foram sempre implantados em segredo de Estado. Desde o projeto Manhattan, em plena guerra, até o reator de Dimona, no deserto do Neguev. É conhecido o DNA autoritário da energia nuclear. Pior: o formato compacto adotado, com base no urânio enriquecido, obedeceu desde o início à lógica militar: uma máquina pequena para mover submarino.
(...)
As usinas nucleares tornaram-se também usinas de mentiras: mentiram sempre e continuam mentindo sobre o problema fundamental dos rejeitos nucleares. A verdade é que até hoje não se encontrou uma solução definitiva e segura para esses rejeitos, que incluem o césio 137, o estrôncio 90, o iodo 129, elementos radioativos mortíferos e cancerígenos mesmo em doses microscópicas. Até as luvas, aventais e vassouras usadas na varrição diária têm que ser despejados em barris hermeticamente isolados. E esses barris vão se amontoando, centenas deles por mês, só em Angra, sem que ninguém saiba que destino lhes dar. Já pensaram até em enviar tudo ao espaço sideral."
Continua em: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=14395&alterarHomeAtual=1
17.6.07
juninas
Nos quadros mais graves, há um compromisso com uma desvalorização completa de si. Eles fizeram um acordo, um voto para a morte e buscam desfazer cada um dos vínculos estabelecidos – inclusive comigo (numa supervisão, um professor me disse: “transferência não é para entender, é para suportar”). Parecem dizer, irredutíveis e orgulhosos, que há de uma porção de imbelicidade, de idiotia na saúde, quase que de covardia. É estranha – mas muito justo, eu acho – esta sensação que me abate, às vezes, de que eles é que estão certos, de que seus sintomas, travestidos por questões individuais, são denúncias cristalizadas da amplidão de nossa miséria social.
***
Acho que vejo as coisas de um lugar infantilizado – e dizer “as coisas”, manter esta indefinição, é próprio da infância. É como um filtro, as lentes, o ponto na parede onde eu escolho abrir uma janela para ver o mundo, o olho mágico – eu vejo, sem abrir a porta – que me impede de me acostumar às responsabilidades adultas (trabalho, casamento, envelhecer) mesmo que eu esteja tentando fazer esta transição de uma maneira delicada. Este olhar, assustado, discrepante, esperançoso, eu o tenho porque me sinto frágil e ele me faz super dimensionar as experiências: vejo os encontros semanais da banda como a experiência política definitiva; vejo as reuniões de condomínio como demonstrações irrefutáveis da existência da “direita” e “esquerda” e da atualidade e urgência do embate entre estas duas; me esmero ao máximo para viver minha profissão, mas me deixa levemente chocada que alguém queira, de fato, me contratar; a fantasia e a imaginação são rotas de fuga que nunca falham; o amor faz viver várias vidas numa vida só; vou ao cinema e saio de lá me perguntando se não me transformei em outra pessoa neste meio tempo, alguém que se esconde quando eu olho no espelho, que assina nosso sobrenome com outra inclinação, eu me pareço com sua mãe, ela se parece com meu pai, usa meu rosto, mas de maneira diferente, com outras intenções, penso se não chegará o dia em que desaparecemos, juntas, dentro de uma gaveta... – e no fim, concluo, exausta, que a realidade é apenas uma possibilidade literária.
11.6.07
Vavá não é "Beijo" Vargas
VAVÁ NÃO É “BEIJO” VARGAS
Paulo Henrique Amorim
. A mídia conservadora (e golpista) se entusiasma com a possibilidade de derrubar o Presidente Lula, por causa do irmão Vavá (Clique aqui para votar no “Índice Vamos Derrubar Lula”, o IVDL, que trata dessa questão).
. A Folha, o Globo e o Estadão deste domingo, dia 10, dedicam um número incontável de páginas e colunas para provar que o Presidente Lula tem que cair, por causa do Vavá.
. Não importa se a Polícia (Republicana) Federal, na gestão do Presidente Lula, foi quem tomou a iniciativa de investigar o Vavá e seus amigos, e recomendar a prisão de uns e o indiciamento de outros.
. Não importa se a Polícia Federal só se tornou Republicana no Governo Lula.
. Porque no Governo do Farol de Alexandria, a ação mais notável da Polícia Federal foi desmanchar a candidatura de Roseana Sarney e beneficiar a candidatura de José Serra. Quando acabou a operação, um funcionário da PF mandou um fax para o Palácio do Alvorada com a frase “missão cumprida” ...
(Clique aqui para votar na enquête que pergunta se a Policia Federal de FHC pediria o indiciamento do irmão do Presidente da República)
. Também não importa se a própria mídia conservadora (e golpista) já divulgou grampos da Polícia Federal que em que o Presidente Lula tenta impedir as atividades do irmão Vavá.
. Nada disso importa.
. A mídia conservadora (e golpista) não descansa, enquanto não derrubar o Presidente Lula.
. É o que fez a mídia conservadora (e golpista) com Vargas, JK, Jango, e Brizola, no Rio, duas vezes.
. A mídia conservadora (e golpista), agora, vai tentar ressuscitar “Beijo” Vargas, o irmão de Vargas.
. A certa altura do “inquérito” do Galeão, presidido pelo patrono da mídia golpista, Carlos Lacerda, “Beijo” foi convocado a depor.
. Só quem poderia convocar os depoentes seria o coronel-aviador Ademar Scaffa, subcomandante da Base do Galeão.
. Ele não convocou.
. Mas “Beijo” foi convocado a depor.
. Quem convocou “Beijo”?
. Não se sabe.
. Provavelmente, Carlos Lacerda, que, hoje, como se sabe, reencarnou, sob diversas formas, no Globo, no Estadão, e na Folha.
. “Beijo” foi acusado de diversas falcatruas, além de ser lançado às sombras suspeitas do atentado da Rua Toneleros, aquele em que Lacerda apareceu com a perna enfaixada sem ter levado um tiro na perna...
. (Sobre a “intimação” de “Beijo”, recomendo a leitura de “1954: Um Tiro no Coração”, de Helio Silva, editora L&PM, pág. 214.)
. Dessa vez, em 1954, a mídia conservadora (e golpista) conseguiu o que queria.
. Vargas deu um tiro no peito.
. E Lacerda fugiu.
. Com medo da multidão que levou o corpo de Vargas do Catete ao aeroporto Santos Dumont e, de lá, a São Borja.
. Antes de se lançar candidato à Presidência, Vargas teve uma conversa com Samuel Wainer.
(De novo, a fonte é “1954”, pág. 178.)
. Vargas perguntou a Wainer qual seria o comportamento da grande imprensa com relação à sua campanha.
. Wainer respondeu que ficaria toda contra.
. Vargas disse: “Não preciso da imprensa para ganhar”.
. Wainer respondeu: “Mas, para perder, ela ajuda muito”.
. Essa campanha golpista da mídia conservadora não tem nada de novo, por aí se vê.
. Só que Lula não é Vargas.
. Nem Vavá, o Beijo.
. Nem o Brasil de 2007 é o mesmo de 1954.
. Quem não mudou foi o Carlos Lacerda. Está vivíssimo.
5.6.07
28.5.07

"Rafael Barrios, café Quito, rua Bucareli, México, DF, maio de 1977. Que fizemos os real-visceralistas quando Ulisses Lima e Arturo Belano se foram: escrita automática, cadáveres requintados, performances de uma pessoa só sem espectadores, contraintes, escrita a duas mãos, a três mãos, escrita masturbatória (com a direita escrevemos, com a esquerda nos masturbamos, ou ao contrário, no caso de quem é canhoto), madrigais, poemas-romances, sonetos cuja última palavra é sempre a mesma, mensagens de apenas três palavras escritas nas paredes ("Não agüento mais", "Laura te amo" etc.), diários desmedidos, mail-poetry, projective verse, poesia convencional, antipoesia, poesia concreta brasileira (escrita em português de dicionário), poemas policiais em prosa (com extrema economia se conta uma história policial, a última frase a esclarece ou não), parábolas, fábulas, teatro do absurdo, pop art, haicais, epigramas (na realidade, imitações ou variações de Catulo, quase todas de Moctezuma Rodriguez), poesia-desesperada (baladas do Oeste), poesia georgiana, poesia de experiência, poesia beat, apócrifos de bp-Nichol, de John Giorno, de John Cage (A year from Monday), de Ted Berringan, do irmão de Antoninus, de Armand Schwerner (The tablets), poesia letrista, caligramas, poesia elétrica (Bulteau, Messagier), poesia sanguinária (três mortos no mínimo), poesia pornográfica (variantes heterossexual, homossexual e bissexual, independentemente da inclinação particular do poeta), poemas apócrifos dos nadaístas colombianos, horazerianos do Peru, catalépticos do Uruguai, tzanticos do Equador, canibais brasileiros, teatro nô proletário... Até publicamos uma revista... Nos mexemos... Nos mexemos... Fizemos tudo que pudemos... Mas nada ficou bom."
tambor foucaultiano
Assim que o ensaio alcança uma estabilidade, aquele momento em que a música acontece de maneira mais fluida e, mais que o regente, são os instrumentos que chamam-se uns aos outros, é quando eu começo a olhar para cima (as árvores, os pára-quedistas do parque, o centro de convenções; se for noite, o céu) e alço meu vôo particular.
Condição de estar lá é não estar completamente. A música me faz distante. São exatamente as pancadas do surdo que me tranqüilizam, a um preço justo, módico: o distanciamento. Meus pensamentos se transformam em som, em batidas reverberantes, em vibrações, em ecos que se perdem. Estranhamente, nunca serão tão claros quanto nos ensaios de uma banda de percussão com mais de cem membros. Vejo meus pensamentos; enquanto música, eles não se tornam imagens, mas, ainda assim, se tornam visíveis.
Dos 125 músicos, quero ser a última. Fazer parte das vidas anônimas, das sombras que se perdem no fim da multidão, dos sons que desfazem as formas, “fundir-se aos mortos e aos sobreviventes”. Qualquer luz individual me irrita agora; numa banda desta, o destaque, a diferenciação, se positivo para um, é negativo para o conjunto. Leio em “A vida dos homens infames”, de Foucault:
“Pretendi também que estas personagens fossem elas mesmas obscuras; que nada as tivesse predisposto a uma qualquer notoriedade; que não tenham sido dotadas de nenhuma das grandezas como tal estabelecidas e reconhecidas – as do nascimento, da fortuna, da santidade, do heroísmo ou do gênio; que pertencessem àqueles milhões de existências que estão destinadas a não deixar rastro (…)”
Mesmo a mais radical noção de “coletivo” é transformada após esta experiência – e toda a sintonia e sincronia arduamente buscada, mas que deve ser apresentada como natural (o pom equilibra-se ao pim, os repiques sustentam os ritmos, a dobras dobram juntas), desfaz-se quando o campo é o campo da palavra. E, de repente, uma experiência musical torna-se uma experiência política (talvez nunca tenha deixado de ser).
Em meu dicionário pessoal, "moralização" quer dizer querer se tornar dono do discurso do outro, eleger-se como juiz mais indicado para julgar aquela fala que não é sua. Moralizar quer dizer lutar para encarcerar os discursos através da desqualificação dos falantes, ignorando que os discursos devem circular livremente e que, mesmo quando mais arduamente combatidos, eles ainda escorregam pelas proibições. Claro que, individualmente, não pára de crescer a pilha de cadáveres dos que morreram por esta única e exclusiva causa: o amordaçamento radical.
Todos os discursos são legítimos, mesmo aqueles que não são – eis meu credo. Deve-se fortalecer não o poder de silenciá-los, mas a capacidade de escutar e responder a eles. Nenhuma censura é aceitável. Não existe um momento em que a censura seja positiva.
Ao mesmo tempo, nem todas as falas merecem resposta – treino em falar apenas aquele mínimo no qual acredito, esperando que as palavras possam criar uma rede que me sustente, que seu uso parcimonioso me proteja, mas sem ignorar sua falha: a multiplicação infinita de sentidos e sua adesão, imediata, aos discursos que circulam sem dono.
19.5.07
Lit-eróticos...
“Muito cedo em minha vida ficou tarde demais. Quando eu tinha dezoito anos já era tarde demais. Entre dezoito e vinte e cinco anos meu rosto tomou uma direção imprevista. Aos dezoito anos envelheci. Não sei se é assim com todos, nunca perguntei. Creio que alguém já me falou dessa investida do tempo que às vezes nos acomete na primeira juventude, nos anos festejados da vida. Esse envelhecimento foi brutal. Eu o vi apossar-se dos traços um a um, alterar a relação que havia entre eles, aumentando o tamanho dos olhos, fazendo mais triste o olhar, mais definida a boca, marcando a testa com rugas profundas. Não tive medo e observei o envelhecimento do meu rosto com o interesse que teria dedicado a uma leitura. Sabia também que não estava enganada, que um dia ele ficaria mais lento, tomando seu curso normal. As pessoas que haviam me conhecido à época de minha viagem à França, quando eu tinha dezessete anos, ficaram impressionadas quando me reviram dois anos mais tarde, com dezenove. Aquele rosto, novo, eu o conservei. Foi o meu rosto. Envelheceu também, é claro, mas relativamente menos do que devia. Tenho um rosto lacerado por rugas secas e profundas, sulcos na pele. Não é um rosto desfeito, como acontece com pessoas de traços delicados, o contorno é o mesmo mas a matéria foi destruída. Tenho um rosto destruído.”(Em algum lugar de “O tempo redescoberto”, Proust ataca as pessoas que relem, que ouvem novamente, que repetem suas experiências estéticas. Diz ele que tais pessoas abrem mão de algo muito especial, ao re-fazer: a memória, o processo de buscar, no fundo, as lembranças decantadas. A segunda – ou terceira, ou quarta – leitura abafaria esta lembrança daquilo que sentíamos na leitura inicial. Não sinto isso com este livro, “O amante”, de Marguerite Duras. Em todas as leituras, reencontro a mesma força, original, de quando o li pela primeira vez. Não consigo ler os outros livros de Duras, eles me parecem enjoativos, como um perfume muito forte, ou quase que desnecessários, doses mais fracas daquilo que está em estado bruto em “O amante”. A minha primeira leitura é sempre sôfrega, ansiosa, não respeita o tempo de um livro. As leituras seguintes são leituras de calma e espanto, juntos. São leituras de reencontro. Esta frase, “Muito cedo em minha vida ficou tarde demais”, ainda me espanta, ainda me prende no exigente exercício que é imaginar esta transgressão tão radical do tempo, imaginar o tempo se condensando, em gotas, no rosto de Marguerite Duras...)
tambor lacaniano
o nome-do-pai é giba ou tutuca – onomatopéico? o nome próprio, o próprio nome-metonímia... entre o surdo e o repique, ele deve “opor a vertigem do aceleramento à vertigem do retarde”, a ordem dos instrumentos ao transe do corpo. (me faz pensar que a diferença entre ordem e obsessão é que a primeira é uma busca estética, um sentido de beleza muito específico, enquanto que a segunda é um evitar da angústia.)
o par de surdos é descendente direto dos tambores sagrados dos rituais religiosos. as batidas vão vibrando nos instrumentos, nas pernas, na caixa torácica, na cabeça, nos fios de cabelo, nas unhas até que a própria respiração se torne, ela também, marcação de tempo e contratempo.




Derevo, Espetáculo Ketzal


