31.10.06

À comemoração...





Segue trechinho do artigo de Emir Sader "O direito à festa e à luta". Ouvi Emir Sader falar no Forum Social Mundial de 2005, em Porto Alegre e não esqueço nunca de uma frase dele: "Com este governo, é pau e conversa", ou seja, se as reformas sociais que tanto queremos e necessitamos não ocorrerem num governo de esquerda, podem ter certeza, não acontecerão em nenhum outro.

Mas, agora, é tempo de comemorar.


O direito à festa e à luta
Emir Sader

Foi duro, foi muito duro. Talvez tivesse sido mais fácil – se tudo fosse pensado do ponto de vista da biografia individual de cada um – ter rompido, ter ido embora, ter dito tudo o que o governo merecia ouvir, com todos os tons e sons. Mas teria sido dizer que tínhamos sido irremediavelmente derrotados, que tudo o que tínhamos feito nas décadas anteriores tinha desembocado numa imensa derrota. Teria sido abandonar as trincheiras de luta que tínhamos construído com tanto esforço e sacrifício.

Dava vontade. Em certos momentos teria sido muito mais fácil deixar correr solta a palavra, aderir à teoria da “traição”, refugiar-nos nas denuncias e abandonar a possibilidade de construir uma alternativa concreta.

Como se não bastasse tudo isso, vieram os “escândalos”: Waldomiro Diniz, Roberto Jéferson, “mensalão”, “sanguessugas” – cada um como uma nova estaca no nosso coração. A imagem ética do PT, construída como a menina dos nossos olhos era revertida. Nos tornávamos o partido dos “maiores escândalos da história do país”. A palavra “petista” passava a ser revestida de uma desconfiança de “corrupção”. Nada de pior poderia acontecer a um partido que tinha nascido, crescido, se fortalecido e se tornado vitorioso com as bandeiras da “justiça social e da ética na política”. Não éramos fiéis nem a uma nem à outra.

No entanto, não nos fomos. Ficamos. Seguimos tentando encontrar os fios para retomar o caminho de que nos havíamos desviado. Sabíamos que os grandes enfrentamentos ainda estavam por ser dados. Sabíamos que nossa política externa era a correta e se havia tornado essencial para o continente – agora povoado de governos progressistas, como nunca na história da América Latina. Sabíamos que nos podíamos orgulhar da Petrobrás – que quase havia se tornado Petrobrax nas mãos criminosas dos tucanos -, da autosuficiência em petróleo, de que uma das maiores empresas do mundo havia resgatado o Brasil da crise do petróleo através de uma tecnologia de pesquisa e extração de petróleo em águas profundas, com tecnologia nacional e pública. Sabíamos que a privataria na educação, que havia feito proliferar faculdades e universidades privadas como verdadeiros shopping-centers que vendiam educação como big-macs, havia terminado. Que se fortaleciam as universidades públicas, que passávamos a ter, pela primeira vez, políticas públicas de cultura, abertas à criatividade e à diversidade popular. Que Lula não era FHC, que o PT não era o PSDB. Que os movimentos sociais não eram mais criminalizados e reprimidos. Que a relação com a Venezuela, a Bolívia, Cuba, a Argentina, o Uruguai – era de irmandade e não de preconceitos de quem olha par ao Norte e para fora. Que a Alca tinha sido brecada e derrotada pela nossa política externa. Que o Brasil tinha sido o principal responsável pela reaparição do Sul do mundo no cenário internacional com o Grupo dos 20 e as alianças com a África do Sul e a Índia. Que as políticas sociais do governo, mesmo não sendo as que historicamente haviam caracterizado ao PT, mudavam, pela primeira vez o ponteiro da desigualdade – a maior do mundo, o maior desafio da história brasileira – no sentido positivo. Que nem que fosse por solidariedade com a grande maioria dos brasileiros – pobres, miseráveis, excluídos, discriminados, humilhados e ofendidos secularmente -, tínhamos que valorizar essas políticas sociais.

Valeu a pena termos ficado, termos continuado na luta, termos acreditado que este é o melhor espaço de luta, de acumulação de forças, de construção de alternativas para o Brasil. Não porque tenhamos triunfado nas eleições . Claro que também por isso. Porque derrotamos o grande monopólio privado da mídia, demonstrando que é possível e indispensável construir formas democráticas de expressão da opinião pública, tirando-a das mãos oligopólicas das quatro famílias que se acreditavam donas do que se pensa no Brasil. Claro que porque derrotamos o bloco tucano-pefelista – e de cambulhada mandamos para a aposentadoria política a Tasso Jereissatti, a ACM, a Jorge Bornhausen, a FHC -, derrotamos a direita.

Recuperamos, especialmente no segundo turno, porque chamamos a direita de direita. Dissemos um pouco das desgraças que eles fizeram para o Brasil – finalmente abrimos o dossiê da “herança maldita”. Criminalizamos as privatizações, possibilitando que aparecesse à superfície a condenação majoritária dos brasileiros a um processo embelezado e sacralizado pela mídia e pelos arautos do grande capital privado dentro dela. Porque apelamos à mobilização popular, porque fizemos uma campanha de esquerda no segundo turno. Porque comparamos o governo deles com o nosso que, mesmo com todas as suas fraquezas, mostrou-se inquestionavelmente superior ao deles. Foi isso que triunfou. Triunfamos pelo que mudamos, não pelo que mantivemos. Ganhamos porque nos mostramos diferentes e não iguais a eles.

Comemoremos, porque merecemos a vitória, apesar dos nossos erros. Mas para estar à altura da nossa vitória, temos que fazer dela uma vitória da esquerda. Uma vitória que esteja à altura do emocionante apoio que o governo recebeu, ao longo de toda a campanha, dos mais pobres, dos mais marginalizados, dos que constituem a grande maioria dos brasileiros, dos que trabalham mais e ganham menos. Dos que souberam, como ninguém, resistir à enxurrada de propaganda que a mídia despejou sobre todos. Fazer do novo governo, antes de tudo o governo deles. De todos os brasileiros, mas sobre tudo dos que sempre foram marginalizados, excluídos, reprimidos, que sempre viveram e morreram sobrevivendo, no anonimato, no silêncio, no abandono.

O artigo inteiro está no link: http://agenciacartamaior.uol.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=1&post_id=65

Tadinho do chuchu...



Ontem, revi o momento em que Geraldo Alckmin admite sua derrota em entrevista. Fez o discurso-chuchu básico e acrescentou ter ligado para Lula e desejado um bom mandato. Para mim, desde o começo da campanha eleitoral, este foi o momento mais interessante de Geraldo Alckmin: a dignidade da derrota. Mas Borges já vaticinou isso há muito - na Ilíada, torcemos pelos gregos, mas percebemos a dignidade dos troianos em sua derrota.

27.10.06

Sem comentários...

Clipping - Carta Maior

Quem é que está mentido, Lula ou FHC?
Bernardo Kucinski

Fernando Henrique disse outro dia que o PT mente, mente, mente, até que a mentira se torne verdade. Depois, foi a vez de seu candidato repetir a acusação. Fui conferir. Descobri que não é bem assim. Localizei facilmente quatro mentiras importantes que os tucanos é que vêm repetindo ad nauseam, conseguindo que se tornem verdades, com a ajuda de nosso preguiçoso e desmemoriado jornalismo.

Primeira mentira, a do aparelhamento do Estado. Essa foi espalhada pelos tucanos logo no início do governo Lula e repetida pela mídia. Acusaram o governo Lula de manter 40 mil cargos de confiança (os que não precisam ser preenchidos por servidores de carreira). Mentira grosseira: em 2005 havia 19.925 cargos de Direção e Assessoramento Superior, chamados DAS ou cargos de confiança. Menos da metade do que dizia o tucanato. Desse total, apenas 7.422 foram preenchidos ou substituídos por indicados pelos partidos da base de sustentação do governo. E pelos dados disponíveis no site do Ministério do Planejamento, 68,9% dos DAS em novembro de 2005 continuavam sendo ocupados por funcionários públicos de carreira, praticamente a mesma proporção de novembro de 2001 (70,5%), apesar da profunda virada política que representou a vitória de Lula. E mais: cerca de 80% vão de DAS1 a DAS3, que dão ao servidor uma gratificação de apenas R$ 1.000 a R$ 1.500. São servidores ocupando funções que exigem confiança, mas relativamente modestas, como secretárias.

A mentira do “brutal” aumento da carga tributária. Os tucanos dizem que o governo Lula aumentou absurdamente a carga tributária. Mentira. Eles é que aumentaram absurdamente a carga tributária: o insuspeito Instituto de Planejamento Tributário diz que a carga aumentou de 28,61% do PIB, no último ano do governo Itamar Franco (1994), para 35,84% do PIB, no último ano do governo FHC (2002). Um aumento de 7,23 pontos percentuais ou mais de 25%.E qual foi o aumento no governo Lula? Apenas 2,01 pontos percentuais, segundo o mesmo instituto, ficando em 37,85% do PIB. E mais, os maiores aumentos relativos no governo Lula foram dos impostos estaduais e municipais. A carga federal aumentou apenas 1,2 ponto percentual, de 25,37% do PIB para 26,55%. Sob os tucanos a carga tributária aumentou brutalmente, mudou de escala, e sob Lula ela variou apenas na margem.

A mentira da maior corrupção de todos os tempos. Essa é uma mentira muito grave, porque mexe com a imagem e a reputação das pessoas as pessoas, de suas famílias, seus filhos, seus amigos. Os tucanos dizem que nunca houve tanta corrupção no Brasil como no governo Lula, mas até hoje foram poucos e de pequena monta os casos de corrupção comprovados dentro do governo federal. Um dos poucos casos foi o do funcionário dos Correios Maurício Marinho, flagrado pegando grana e devidamente demitido depois de uma sindicância. Eram três mil reais. Em contraste, no governo FHC foram vários e de grande monta os casos de corrupção, quase todos na casa dos bilhões de reais: o prejuízo de R$ 1,54 bilhão do Tesouro no socorro aos bancos Marka e Fonte-Cindam, levando à demissão do então presidente do Banco Central, Chico Lopes, e à fuga para a Itália, onde está até hoje, do banqueiro Salvatore Cacciola; o desvio de R$ 2 bilhões de recursos da Sudam no período 1994 a 1999, que levou à renúncia do ex-presidente do Senado, Jader Barbalho, e o desvio de R$ 1,4 bilhões do Finor em 653 projetos da área da Sudene, através do uso de notas frias; o desvio de R$ 168 milhões na construção da nova sede do TRT de São Paulo, levando à prisão do juiz Lalau e de Fábio Monteiro, que conseguiam as liberações de verbas diretamente do então secretário da Presidência, Eduardo Jorge (o que não significa de necessariamente que Eduardo Jorge soubesse dos desvios); o pagamento comprovado de R$ 200 mil aos deputados Ronivon Santiago e João Maia para que votassem a favor de Emenda da reeleição, levando à expulsão dos dois do PFL e renúncia de seus mandatos.

A mãe de todas as mentiras, a de que o governo Lula não combate a corrupção. Essa é pesada. É o governo FHC que nunca combateu a corrupção e não permitiu que fosse investigada. Não têm paralelo com o governo FHC as dezenas de operações de desbaratamento de quadrilhas no serviço publico, ou com ramificações na Receita Federal, no Ibama, na Previdência e na Polícia Rodoviária Federal, todas originárias dos tempos do governo FHC ou até de antes; destacam-se a operação vampiro e a operação sanguessuga, que desbaratou esquemas de corrupção que vinham desde 2002. E mais, Fernando Henrique adotou como política geral impedir investigações de corrupção.Talvez porque as privatizações exigiam um ambiente de permissividade. Em vez de mandar investigar as fraudes da Sudam e da Sudene, FHC extinguiu as duas agências de desenvolvimento regional, com o que tornou praticamente impossível qualquer investigação futura. Uma modalidade de “queima de arquivo” institucional. Em vez de investigar as acusações de fraudes no DNER, extinguiu da mesma forma o DNER. Quando um grampo revelou malandragem de funcionários do BB e da Previ nas privatizações, a ponto de caírem os altos funcionários e até o ministro das Comunicações, FHC não permitiu a instalação de uma CPI da Privatização da Telebrás, usando o truque regimental de prolongar o funcionamento de várias CPIs fantasmas.Tudo isso está na internet. Qualquer jornalista pode refrescar facilmente a memória e relembrar que eles mesmos chamavam o procurador-geral da República do governo FHC de engavetador-geral da República. Memória, pesquisa, contextualização e hierarquização adequada dos fatos. Isso é jornalismo. O resto é mentira.

Matéria completa: http://agenciacartamaior.uol.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3372


Melhorias no setor não suprimem rosário de contestações
Jonas Valente

(...)

Passados oito anos do leilão da Telebrás, os resultados são controversos. O próprio aumento de aparelhos, um dos argumentos mais entoados por Alckmin e tucanos na defesa do processo, apresenta uma trajetória irregular. Entre 1998, primeiro ano do novo modelo, e 2001, foi registrado crescimento de linhas fixas de 20 milhões para 47 milhões. No caso da telefonia móvel (celulares), o salto foi de 7,5 milhões para 35 milhões de aparelhos em 2002. O crescimento da telefonia móvel continuou nos quatro anos seguintes, chegando ao número de 92 milhões brasileiros com telefones celulares em 2006. Já na telefonia fixa, a quantidade de terminais caiu para 39,9 milhões este ano.

Da forma como foi desenhada a privatização, com um monopólio privado regional (a Telefônica em São Paulo, a Telemar em parte do Sudeste e Nordeste, e assim por diante), a concorrência se tornou uma fábula na telefonia fixa (leia matéria sobre o assunto) e ficou apenas na modalidade móvel. “Desenharam em três áreas e não estabeleceram regras de competição e condições de competitividade. Eles questionavam o problema da competição, mas mantiveram a mesma situação só que dessa vez nas mãos da iniciativa privada”, analisa José Zunga, da Federação Interestadual dos Trabalhadores em Telecomunicações (Fittel). No caso dos terminais fixos, mesmo com o monopólio, houve uma expansão da oferta nos primeiros anos. O crescimento das linhas e a redução do preço para sua habilitação não foram motivados pela busca da universalização do serviço, mas pelo cumprimento das metas na sua área de cobertura para poder avançar sobre outras áreas. O aumento da disponibilidade de linhas não se refletiu no crescimento do acesso da população e gerou uma ociosidade de 11 milhões das 47 milhões de linhas em funcionamento em 2001.

(...)

Em artigo presente no livro Governo Lula: decifrando o enigma, o economista César Benjamin, que foi candidato a vice-preidente na chapa de Heloísa Helena, do PSol, critica os impactos da privatização da telefonia. De acordo com ele, os custos de investimento e a manutenção de capacidade ociosa do setor acabaram sendo bancado pelo Estado. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por exemplo, investiu US$ 6 bilhões na expansão das redes entre 1998 e 2001. Além de onerar o governo e aumentar o endividamento externo, a conta foi transferida, segundo Benjamin, para o cidadão, que teve de arcar com um aumento abusivo das tarifas de telefonia. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), o custo da telefonia para a população entre 1998 e 2006 cresceu 156%, contra apenas 56% de evolução da inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O reajuste das tarifas foi pressionado pelo fato da receita proveniente da cobrança das mesmas ter sido usado para compensar a redução do preço da habilitação das linhas. Isso se refletiu no preço da assinatura básica. “Assinatura básica sempre recebeu reajuste maior do que os outros serviços porque é receita garantida”, diz Daniella Tretell, do Idec. Dados da Fittel mostram que, entre 1994 e 2006, o preço deste item saiu de US$ 0,69 para US$ 20. O resultado foi a redução do número de terminais, chegando a menos de 40 milhões em 2006, e a constituição de um serviço desigualmente distribuído no País, que melhorou a qualidade e ampliou sua capilaridade nas regiões mais ricas e ainda está distante de parte importante da população.

(...)

O questionamento dos resultados vem acompanhado de avaliações negativas do processo de privatização. Para Carlos Zanatta, editor do periódico especializado Teletime, o leilão dos ativos sequer deveria ter acontecido. “Não havia necessidade de vender. Fico me perguntando se precisava ter feito isso. Não teria outra forma de tocar o negócio da Telebrás?”, questiona. O pesquisador e jornalista Gustavo Gindre, que ocupa uma das cadeiras no Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI-Br), não considera que tenha sido um problema a abertura à concorrência do setor, mas aponta como erro histórico não ter aproveitado o peso da Telebrás para manter uma empresa estatal forte, com condições não só de competir com as operadoras que passariam a atuar no mercado, mas também no plano internacional.

“As redes e serviços de comunicações estão no cerne do funcionamento do capitalismo atual. Qualquer país que pretenda ser ator influente neste mundo globalizado e informacional detém o controle de uma grande operadora de telecomunicações, mesmo que privada. O Brasil possuía a maior operadora da América Latina e do Terceiro Mundo, a primeira maior fora dos Estados Unidos e Europa. Perdemos a chance de determos um operador global de telecomunicações, deixamos o caminho aberto para a Telmex”, lamenta Marcos Dantas. Na opinião do professor, o governo Lula perdeu a chance de buscar uma nova estatização de parte do setor e favoreceu ainda mais a entrada da Telmex ao recusar a compra da Embratel por um consórcio comandado por capital nacional dos fundos de pensão de estatais.

(...)

Matéria completa: http://agenciacartamaior.uol.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=12675

Ritual 'tutânico'

Arnaldo Antunes e Grupo Corpo, 1999


Momento III
Arnaldo Antunes - 1999
é molhado de costas
é impermeável de bruços
é de frente e de lado de costas
um pouco mais embaixo de bruços
é como é de costas
como deve ser de bruços
fica de pé de costas
deita no chão de bruços
fecha sua couraça de costas
abre aspas de bruços
acha graça de costas
dá risada de bruços
fala no telefone de costas
escuta passos de bruços
voa no céu de costas
respira em baixo d'água de bruços
é como estar de bruços de costas
é como estar de bruços
é a mesma pessoa de costas
se transforma de bruços
fica cansado de costas
descansa de bruços
fala pelos cotovelos de costas
pensa melhor de bruços
ajoelha de costas
senta de bruços
a chuva cai de costas
os automóveis passam de bruços
já é de madrugada de costas
adormece de bruços
abre o portão de costas
anda na rua de bruços
tem certeza de costas
fica em dúvida de bruços
muda de posição de costas
não quer ficar mais de bruços
deita de costasacorda de bruços
toma água de costas
toma sol de bruços
fica boiando no mar de costas
nada de bruços
levanta de costas
sente o peso dos braços de bruços
acorda de costas
volta a dormir de bruços

25.10.06

Brasilia - nonada!

Brasília é uma cidade terrível. Nos meses de calor, me dói do lado de fora – as coisas, as árvores, os bichos, os carros e as ruas parecem suar junto com a gente e reclamar, baixinho, da secura.

Nestes meses chuvosos, me dói do lado de dentro. Dói assim que, indo para o trabalho, eu atravesso o eixão e vejo o céu acinzentado lá no fundo. Como se eu não conseguisse mais me organizar - a obra de Kapoor, no CCBB, chama “Wounds and Absent Objects”, como se eu virasse objeto ausente também, ausência. Desfaz a “nossa pessoa”, como eu ouvi, dia desses, alguém lindamente se referir a si mesmo. Dá uma dormência lá dentro, não nos braços, não nas pernas – mais Guimarães Rosa – lá “nas peles de dentro, no sombrio do corpo, no arranhar dos órgãos”. A chuva anoitece o dia e o tempo do relógio não vale mais para nada. Este, com certeza, não é o mesmo registro que os compromissos, os atrasos, os cálculos, os números. Deve ser, provavelmente, o tempo da morte.

Não demora muito para eu perceber alguma coisa. Acho que já falei disso aqui. A grande Casa da Infância, e do Sonho. Me angustia o céu cinzento da cidade porque, na casa dos avós, era sempre chuva. Chovia e a gente não podia sair da casa, a avó não deixava ficar nem na varanda. Chovia e o único que eu podia fazer era ler. Ou chovia e eu asmava, arfante e quieta porque eu ainda era criança sem medo neste tempo. (Brincadeiras de Rosa).

(A leitura sempre foi extensão da minha asma.)

Vous comprenez? Est-ce que vous comprenez?

“Tudo o é dito, é dito para alguém.” “O que significa, significa para alguém”. “Mesmo quando falamos sozinhos, falamos para o Outro”. Acho que estamos, mais, falando para a linguagem mesma. Para dribla-la, corrompe-la, menti-la nela mesma ou fazer a verdade atravessá-la (mas nunca fixar-se na linguagem).

Mas será tudo linguagem? Será tudo literatura? Porque eu sei que não é tudo psicanálise.

“Viver é coisa perigosa.”

Perigosa mesmo quando se vive estas pequenas impressões, sugestões sussurradas, leve empurrão direção nenhuma: um certo ângulo, e um olhar pode acontecer. Chego ao trabalho e olho o Setor Comercial à noite, sob a luz amarela dos postes, o cheiro de queimado do prédio da frente, os policiais atravessando a rua, os travestis segurando vistosas sombrinhas contra o chovisco.

Um olhar literário ou cinematográfico, um olhar que pode encontrar alguma beleza ou sublime nestas cenas (o sublime que vai além da beleza, que encontra outra coisa, que pode ser o horror, mas que o prende mais do que aquilo necessariamente belo). O olhar de Proust. Quando ele está acamado e asmático, se alimentando de café, amorosamente cuidado por Celeste Albaret. Quem diria que aqueles grã-finos, a aristocracia perdida ao perceber que dinheiro vale muito mais que espírito, estas pessoinhas que, como nós, viviam sua vida e se tornaram literatura a despeito de si mesmas.

Estou preocupada com estas operações: tornar a linguagem vida (se bem que, cada vez mais, tenho certeza de que linguagem é condição sine qua non para qualquer vida), tornar a vida literatura. Um bom livro não faz mais que isso: escolher as palavras a serem assassinadas ao seu redor, no seu campo magnético. O mesmo faz um bom filme: escolher as imagens que serão transformadas em enigmas.

De amor e trevas, Amós Oz

"Quando Dostoievski ainda cursava a faculdade, ele andava assaltando e matando pobres velhinhas?", mas sim se você, leitor, pode experimentar se colocar no lugar de Raskolnikov para desse modo sentir em sua própria pele todo o horror, o desespero, a humilhação maligna misturada à arrogância napoleônica, as alucinações megalomaníacas, o aguilhão da fome e da solidão, o desejo, a exaustão e a nostalgia da morte para que se possa então fazer a comparação (cujo resultado será mantido em segredo) não entre o personagem da história e os diversos acontecimentos da vida do autor, mas entre o per¬sonagem da história e o seu próprio eu, o seu eu secreto, perigoso, infeliz, louco, criminoso, é esse o ser ameaçador que você mantém sempre bem preso, bem no fundo, dentro de sua masmorra mais tenebrosa para que ninguém no mundo jamais suspeite, D'us o livre, de sua existência, nem seus pais, nem as pessoas que você ama, para que não fujam tremendo de medo de você, como fugiriam de um monstro horrível - e então, quando você lê a história de Raskolnikov, e você não é o leitor fofoqueiro, mas o bom leitor, vai poder trazer esse Raskolnikov para dentro de si próprio, para dentro dos seus porões, para os seus labirintos sombrios, para além de todas as trancas, para dentro da masmorra, e lá poderá fazer que ele encontre os seus monstros mais indecorosos, mais obsce¬nos, e assim poderá comparar os monstros de Raskolnikov com os seus próprios monstros, aqueles que na vida civil você nunca poderá comparar com nenhum outro, pois nunca os apresentará a nenhuma alma viva, nem mesmo em sussurros, na cama, ao ouvido de quem se deita com você à noite, para que o outro não arranque no mesmo instante o lençol e nele se enrole, e fuja de você aos gritos de horror. Assim Raskolnikov conseguirá diminuir um pouco a infâmia e a solidão do calabouço em que cada um de nós é obrigado a trancafiar em prisão perpétua o seu prisioneiro interior. Assim os livros poderão de alguma forma consolá-lo pela tragédia dos seus segredos mais vergonhosos: não só você, meu caro, mas todos nós somos um pouco como você; nenhum de nós é uma ilha, mas todos somos penínsulas rodeadas por quase todos os lados de água muito escura, e ainda assim ligados às outras penínsulas. Rico Done, por exemplo, no livro O mesmo mar, pensa acerca do misterioso Homem das Neves que perambula pela encosta do Himalaia:Aquele que nasceu de mulher carrega seus pais nas costas. Não nas costas. Na dívida. Por toda a vida deve carregar a eles e a toda aquela legião, os pais dos pais e os pais desses pais, boneca russa grávida até a última geração. Por onde quer que ele ande, está grávido de antepassados, deita-se grávido dos pais e grávido dos pais se levanta, grávido dos pais vai perambular bem para longe, ou fica no mesmo lugar.Noite após noite e ele divide o berço com o pai e a cama com a mãe, até chegar o seu dia.E você, não pergunte: o que é isso? São fatos reais ? De verdade? É isso que se passa com esse autor? Pergunte a si mesmo. Sobre você. E a resposta, pode guardar para si.”
Amós Oz, "De Amor e Trevas"

Esta foi uma generosa contribuição de C. para este blog. Complemento com um pedacinho da obra de Bellemin-Noel: "O poema sabe muito mais que o poeta."

20.10.06

"O PT inteiro tá aqui..."


Charge do Aroeira: http://odia.terra.com.br/especial/rio/aroeira/outubro.htm#

E, quem quiser, entrevista de Alckmin na CBN, onde ele falou esta pérola: "O PT inteiro aqui, hein?". O link é: http://radioclick.globo.com/cbn/.

Mas, para quem, compreensivamente, não tiver paciência, segue o resuminho que eu fiz: deu no 'The Economist' que os chineses estão invadindo o Brasil porque nós temos "memória inflacionária".... blablablabla... o PCC diminui o índice de homicídio em São Paulo (parece ser mesmo o que Alckmin pensa, já que, toda vez que alguém pergunta sobre o PCC é isso que ele responde)... blablablabla... "Vou cortar 80 bilhões sem fazer reforma da Previdência, aumentando 16% a aposentadoria e diminuindo impostos"... blablablabla... "A FEBEM ESTÁ MELHORANDO MUITO!!!" (esta é literal)... "SOU MAIS POBRE QUE O LULA" (literal também)... "Eu vou responder", "Eu vou responder": mas não responde é nada!

19.10.06

Como procede a oposição em eleição...

O executivo refém do legislativo...

Agora, do blog do Ilimar Franco: http://oglobo.globo.com/blogs/ilimar/

Uma contribuição à ingovernabilidade

Esse Raul Jungmann!

O fígado não é bom conselheiro político. O deputado da oposição, Raul Jungmann (PPS-PE), acaba de abrir um precedente que certamente afetará o atual governo, mas principalmente todos os futuros governos do país. O parlamentar está dando sua contribuição para tornar este país ingovernável e para amarrar o Poder Executivo.

Jungmann entrou na Justiça Federal para suspender a validade de uma MP que abria créditos extraordinários no Orçamento, no valor de R$ 1,5 bilhão. A juíza da segunda Vara de Brasília suspendeu a validade da MP. A juíza alegou, citando a Constituição: "créditos extraordinários só podem ser autorizados em casos extremamente urgentes e imprevisíveis".

A lição foi aprendida. A partir de agora quem for de oposição tem mais esta forma de luta. Entrar na Justiça Comum para impedir que o eleito pelo povo execute o Orçamento. Estes recursos certamente não vão mudar os rumos das eleições. Mas o retardamento de sua liberação pode ter desdobramentos práticos negativos para o país, sobretudo no caso das verbas para o combate à gripe aviária.

Mentirobrás, é?...

Do Blog do Josias: http://josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br/

Alckmin agora elogia Nakano e defende déficit zero

Definitivamente, os eleitores precisam tomar cuidado com a pregação dos candidatos. Deve-se evitar confundir discurso com densidade. Na semana passada, o economista Yoshiaki Nagano, cabeça coroada do programa econômico de Geraldo Alckmin, dissera que o novo presidente teria de cortar gastos, para conter o déficit público. Alckmin apressou-se em desdizê-lo. Foi enfático: "Não vai cortar. Isso não consta do meu programa".

Nesta quinta, em sabatina promovida pela Folha, Alckmin desdisse a si mesmo. "Eu estou plenamente de acordo com o professor Nakano. Nós vamos alcançar o déficit nominal zero. Se a gente vai fazer isso em 4 ou 6 anos, é uma questão de gestão."

Com a nova declaração, Alckmin tornou-se acionista da “Mentirobras”, a estatal metafórica que ele diz ter sido criada pelo petismo para produzir intrigas eleitorais contra ele. A lógica e a precariedade das contas públicas indicam que o Alckmin desta quinta é o autêntico. Portanto, o Alckmin da semana passada é um rematado mentiroso.

18.10.06

Sobre a privatização...

Lembrando apenas que, entre 1996 e 2001, o governo federal privatizou 68 empresas públicas, correspondentes à 75% do patrimônio nacional.

Para FHC, é arcaico debater as privatizações
Da Redação da Carta Maior

Nesta terça-feira (17), no entanto, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em entrevista à emissora de rádio CBN, deixou clara a visão que seu partido tem dos processos de privatização ocorridos no país – sinalizando a compreensão dos tucanos sobre o assunto. FHC não defendeu diretamente as privatizações do Banco do Brasil e da Petrobrás. Disse, inclusive, que era contrário à privatização desta última. Mas não teve nenhum constrangimento em comemorar o que aconteceu com a Companhia Vale do Rio Doce e com a telefonia do país “graças”, segundo ele, às privatizações.

“A Companhia Vale do Rio Doce é hoje uma das maiores do mundo. Ela não tinha recursos, por causa do endividamento do Brasil ela não podia aumentar o seu investimento nem seu endividamento; por causa das regras de licitação, sendo uma empresa pública, não podia ter agilidade. Olha o Conselho da Vale naquela época. Não quero entrar em nomes de pessoas, mas quem eram os que mandavam na Vale? Políticos... Bom, e os resultados, escassos. O que aconteceu? Foi privatizada. Diziam: “vai cair na mão dos estrangeiros”. Mentira. Hoje quem é dono da Vale são os funcionários do Banco do Brasil. A Previ mais o Bradesco. Hoje ela multiplicou seu valor por 10. Não porque valesse 10 quando foi vendida. Ninguém queria comprar. Foi uma dificuldade pra alguém comprar. Hoje multiplicou o seu valor por 10, está comprando empresas do exterior, é uma das maiores do mundo e paga de impostos ao governo federal muito mais do que jamais rendeu ao governo enquanto estava na mão do governo. Qual é o erro? Eu não entendo”, disse Fernando Henrique.

Os erros que o ex-presidente não entende, apontados por diferentes setores organizados – e não somente pela candidatura Lula – são tantos e de natureza tão diversas que há um ano, depois de movidas dezenas de ações populares contra a privatização da empresa, que acusam a União, o BNDES e o então presidente Fernando Henrique de crime de lesa-pátria, a 5ª Turma do TRF (Tribunal Regional Federal), de Brasília, decidiu que a privatização da Vale deveria passar por uma perícia técnica.

(...)

Em maio de 1997, a companhia foi a leilão e teve 41,37% de suas ações vendidas por R$ 3,34 bilhões. À época, a Vale era um complexo industrial com 54 empresas, maior produtora e exportadora de ferro do mundo, com concessão de duas das maiores ferrovias do planeta. Algumas avaliações deste patrimônio apontam para um valor de até US$ 1,5 trilhão.

A decisão judicial permitiu a retomada em todo o país da campanha pela reestatização da Vale, trazendo de volta para a população o debate sobre a privatização que é considerada uma das mais lesivas ao patrimônio público nacional. Em 1997, 70% dos brasileiros se disseram contra a privatização da Vale. Mas o governo dos tucanos fez questão de não ouvir. Hoje a companhia vale cerca de R$ 100 bilhões. Somente o lucro de seus dois últimos anos representa cinco vezes o valor pela qual a empresa foi vendida.

Há outros motivos para que se afirme que houve uma sub-avaliação do valor da empresa. Em 8 de maio de 1995, a direção da Vale informou a Securities and Exchange Comission que suas reservas lavráveis de minério de ferro em Minas Gerais totalizavam 7.918 bilhões de toneladas. No edital de privatização, porém, constou apenas 1,4 bilhão de toneladas. Em relação às minas de ferro da Serra de Carajás, a Vale informou que suas reservas eram de 4.970 bilhões de toneladas. O edital de privatização subtraiu 3,17 bilhões de toneladas, apresentando a reserva com apenas 1,8 bilhão de toneladas.

Mas os questionamentos ao processo não param na questão do valor da venda. O resultado do leilão causou surpresa. O consórcio Brasil, liderado pela Companhia Siderúrgica Nacional, de Benjamin Steinbruch, adquiriu o controle acionário da Vale. No entanto, o consórcio favorito era o Valecom, liderado pelo Grupo Votorantim, de Antônio Ermírio de Moraes, que contava com a participação da Anglo American, do Centrus (fundo de pensão do BC), do Sistel (fundo de pensão da Telebrás), da Caemi-Mitsui e da Japão-Brasil Participação (formado por 12 corporações).

Segundo os partidos que na época estavam na oposição, o governo FHC interveio no processo, impedindo que os demais fundos de pensão de estatais aderissem ao consórcio de Antônio Ermírio e optassem pelo consórcio de Steinbruch. Assim, juntos, CSN, Previ (o fundo de pensão do Bando do Brasil), Petros (fundo de pensão da Petrobrás), Funcef (fundo de pensão da CEF), Funcesp (fundo de pensão dos empregados da Cesp), Opportunity e Nations Bank (fundo) arremataram a companhia.

Em novembro de 1998, foram divulgadas gravações clandestinas de telefonemas na sede do BNDES entre autoridades do governo sobre o leilão da Telebrás, ocorrido meses antes. As fitas indicam o interesse do ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, e do presidente do BNDES, André Lara Resende, para que o Opportunity vencesse um dos leilões. Nas conversas, o próprio presidente Fernando Henrique Cardoso permitiu que seu nome fosse usado para pressionar a Previ a entrar no consórcio liderado pelo Banco Opportunity.

No processo de privatização da Vale, empresas que haviam participado da avaliação da empresa tornaram-se depois associados na composição acionária da empresa privatizada, colocando todo o processo sob judice.

A defesa do governo federal para entregar a companhia foi a de que a privatização diminuiria o déficit fiscal brasileiro, que com a privatização o governo liberaria mais recursos e teria maior capacidade gerencial para a área social e que, com os recursos das privatizações, o governo brasileiro reduziria a divida do país. Alguns fatores, no entanto, foram “esquecidos”, como o impacto da privatização na classe trabalhadora. Em 1996, a Vale tinha 15.483 trabalhadores e, em 2000, esse quadro havia sido reduzido para 11.442. Mais de 4.000 mil trabalhadores ficaram desempregados. O PSDB continua, no entanto, não vendo nada de errado com o processo.

Continua no link: http://agenciacartamaior.uol.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=12562

17.10.06

Se alguém ainda duvida...

Edmilson Bruno: http://www.youtube.com/watch?v=1m2vWg8WS08

O clipping nosso de cada dia

Do site: http://agenciacartamaior.uol.com.br/templates/index.cfm?alterarHomeAtual=1

O medo e a mentira
Flávio Aguiar

"Os arautos da candidatura tucana na imprensa não ficaram repetindo o bordão da mentira, porque ele traz o ônus da prova. Mas passaram a bater no refrão do “medo”, do “terrorismo” que petistas viriam fazendo, acusando o candidato tucano antecipadamente de pretender privatizar tudo o que resta de privatizável: Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Petrobrás, etc.

Movido pela pressão, e na esperança de ganhar o apoio do PDT, o candidato tucano enviou carta onde, entre outros compromissos, trata do tema. As manchetes logo alardearam que a carta firmava compromisso em não privatizar aquelas empresas estatais. Entretanto a leitura da carta no site do PDT mostra que a expressão de fato usada foi a de comprometer-se a manter “o controle do Estado” sobre as empresas.

O modelo de privatização que ficou mais gravado do primeiro plano da memória popular foi o do leilão, como ocorreu no caso da CSN e da Vale do Rio Doce. Mas há outras maneiras de privatizar, como a de repartir uma empresa e vender partes dela; ou ainda vender ações, como era o plano em relação a Nossa Caixa (a Caixa estadual de S. Paulo) para tapar o rombo de 1,2 bilhão nas contas do governo estadual – rombo deixado pelo candidato tucano a seu sucessor. Medidas como esta passaram a se chamar de “robustecimento” da empresa, de “capitalização”, e outras expressões que “tucanam” a privatização.

O PT, é claro, tenta capitalizar o sentimento difuso que associa “gestão tucana” e “privatização”. Mas o que acusa o candidato tucano é sobretudo seu passado, em São Paulo, e o passado de seu partido nos oito anos em que ocupou, junto com o PFL, o Palácio do Planalto. Durante esse tempo tentou-se sim privatizar a Petrobrás. Chegou-se a mudar seu nome, numa atitude que não resistiu ao desagrado que provocou: de Petrobrás ela devia passar a se chamar Petrobrax."


A mídia e os novos cães de guarda
Marco Aurélio Weissheimer

Neste fim de semana, Veja fez uma nova denúncia. A Carta Capital também. Maioria da mídia escolheu repercutir a primeira. Comportamento da mídia brasileira no processo eleitoral atualiza reflexão de Serge Halimi, autor do livro “Os novos cães de guarda”. Segundo ele, a “censura é mais eficaz quando não tem necessidade de se manifestar, quando os interesses do patrão, miraculosamente, coincidem com os da “informação”.

"Ele descreve assim a lógica desse novo modelo: “A censura é mais eficaz quando não tem necessidade de se manifestar, quando os interesses do patrão, miraculosamente, coincidem com os da “informação”. Nesse caso, o jornalista fica prodigiosamente livre. E sente-se feliz. Como bonificação, concedem-lhe o direito de acreditar que é poderoso. Eufóricos com a brecha de um muro de Berlim que se abre para a liberdade e o mercado, soldadinhos deslumbrados pela armada americana que, por helicóptero, transporta para o Golfo Pérsico a guerra ‘cirúrgica’ e os cruzados do Ocidente, grandes advogados da Europa monetária no momento do referendo sobre Maastricht: repórteres e comentaristas recebem carta branca para expressar seu entusiasmo e poder”. Neste mundo, prossegue Halimi, “o jornalista deixou de ter qualquer autonomia” e só lhe resta “a possibilidade de exibir diante de seus confrades um ‘furo’ que provaria seus restos de poder”."

16.10.06

Carta Capital, a Grande Mídia, Edmilson Bruno, o Golpe II...

Primeiro, o link para a reportagem da Carta Capital: http://cmscotti.googlepages.com/fatos-ocultos.pdf

Agora, o link para a transcrição do conteúdo da conversa de Edmilson Bruno e jornalistas: http://viomundo.globo.com/site.php?nome=PorBaixoPano&edicao=343 (aposto que a mãe do Edmilson Bruno só deu este nome para ele porque achava que, algum dia, ele ia ser muito famoso; e não é que ela acertou???...)

Questões que ficam no ar: como as equipes de Alckmin e Serra já estavam em frente a delegacia antes mesmo da chegada dos presos? Por que Estadão, Folha e Globo publicaram as declarações de Edmilson Bruno de que tinha sido roubado quando sabiam que esta era falsa? Por que, até agora, não apresentaram a conversa gravada? A cada vez que surge, Edmilson Bruno aprofunda o enigma a sua volta: ele fez a prisão dos petistas a partir de uma dica anônima que, agora, torna-se, também, suspeita. Por que não se comenta que 70% das ambulâncias da Planam foram compradas pelo Ministério da Saúde ainda no governo anterior? Para esta informação, não se precisa de dossiê nenhum, basta olhar os dados. Por que, do dossiê, exibe-se apenas as fotos do dinheiro e não as imagens e extratos que também fazem parte dele? (Aqui, um pouquinho de manipulação subliminar: ninguém fala dossiê 'contra José Serra', mas fica numa coisa vaga, generalizada: dossiê contra tucanos...) Ninguém lembra que o procurador Mario Avelar, que pediu a prisão dos 'aloprados' em período eleitoral, é o mesmo que destruiu a candidatura de Roseana Sarney que, ironicamente, surgia, em 2002, como a candidata anti-lula. Ninguém lembra, tampouco, que Mario Avelar é também o mesmo procurador que pediu a prisão do diretor do Ibama e, depois, admitiu que não tinha provas o suficiente para fazer este pedido (mesmo comportamento que ele teve, agora, com Freud Godoy). Outra questão: a compra do dossiê, em si, não é um crime (quem não se lembra da Veja admitindo ter recebido um dossiê do orelhudo Daniel Dantas, não ter verificado suas informações - contas no exterior de Lula, Tomás Bastos, etc - e ainda assim ter publicado do mesmo jeito?). O crime se caracterizaria pela falsidade das informações - como ninguém quer falar das informações do dossiê, ninguém vai saber se elas são verdadeiras ou falsas - ou pela origem ilícita do dinheiro, o que parece ser o caso.


Agora, trecho de um artigo (http://conversa-afiada.ig.com.br/materias/394501-395000/394778/394778_1.html)


O 1º GOLPE DE ESTADO JÁ HOUVE. E O 2º?
Paulo Henrique Amorim


Um golpe de Estado levou a eleição para o segundo turno.

É o que demonstra de forma irrefutável a reportagem de capa da revista Carta Capital que está nas bancas (“A trama que levou ao segundo turno”), de Raimundo Rodrigues Pereira. E merecia um sub-titulo: “A radiografia da imprensa brasileira”.

(...)


Na mesma edição da revista Carta Capital, ao analisar uma pesquisa da Vox Populi, que Lula tem 55%, contra 45% de Alckmin, Mauricio Dias diz: “ ... dois fatos tiraram Lula do curso da vitória (no primeiro turno). O escândalo provocado por petistas envolvidos na compra do dossiê da familia Vedoin ... e secundariamente o debate promovido pela TV Globo ao qual o presidente não compareceu.”

Quer dizer: o golpe funcionou.

Mino Carta, o diretor de redação da Carta Capital, diz em seu blog, aqui no IG (http://blogdomino.blig.ig.com.br/), que houve uma reedição do golpe de 89, dado com a mão de gato da Globo, para beneficiar Collor contra Lula. “A trama atual tem sabor igual, é mais sutíl, porém. Mais velhaca,” diz Mino.

Permito-me acrescentar outro exemplo.

Em 1982, no Rio, quase tomaram a eleição para Governador de Leonel Brizola. Os militares, o SNI, e a Policia Federal (como o delegado Bruno, agora, em 2006) escolheram uma empresa de computador para tirar votos de Brizola e dar ao candidato dos militares, Wellington Moreira Franco. O golpe era quase perfeito, porque contava também com a cumplicidade de parte de Justiça Eleitoral e, com quem mais? Quem mais?

O golpe contava com as Organizações Globo (tevê, rádio e jornal, como agora) que coonestaram o resultado fraudulento e preparam a opinião pública para a fraude gigantesca.

Que só não aconteceu, porque Brizola “ganhou a eleição duas vezes: na lei e na marra”, como, modestamente, escrevi no livro “Plim-Plim – a peleja de Brizola contra a fraude eleitoral”, editora Conrad, em companhia da jornalista Maria Helena Passos.

Está tudo pronto para o segundo golpe.

O Procurador Avelar está lá.

Quantos outros delegados Bruno há na Policia Federal (de São Paulo, de São Paulo !).

A urna eletrônica no Brasil é um convite à fraude. Depende da vontade do programador. Não tem a contra-prova física do voto do eleitor. Brizola aprendeu a amarga lição de 82 e passou resto da vida a se perguntar: “Cadê o papelzinho ?”, que permite a recontagem do voto ?

E se for tudo parar na Justiça Eleitoral? O presidente do TSE, ministro Marco Aurélio Mello já deixou luminosamente claro, nas centenas de entrevistas semanais que concede a quem bater à sua porta, que é favor da candidatura Alckmin.

E o segundo golpe? Está a caminho. As peruas da GW já saíram da garagem.

15.10.06

Musiqu-erotique...

...dolente por questão de estilo...
Paulinho da Viola, Bêba-do Samba

Lit-erótico...



Viver é um descuido prosseguido.
Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas

13.10.06

São Paulo, Outubro 2006

Sonho com uma decisão que seja, de fato, tomada. Uma decisão decidida. E não uma decisão empurrada do estômago para a boca e da boca para o mundo… Como diz Guimarães Rosa, entender desta 'gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder'.

Meio melancólica (a melancolia é mesmo meio-a-meio), percebo que a cidade não me estranha mais (a via é de mão dupla). Ando sozinha e sem muito receio. Tento parecer apressada, atrasada, corrida, mas não convenço. Estou absolutamente disponível, as mãos nos bolsos, o passo vago. Sou turista e ser turista é propiciar o acontecer da literatura.

Afinal, Pontalis fala que toda geração deve encontrar para si uma literatura que faça de todo o resto literatura. Há momentos, então, em que o mundo se faz literatura. Em Brasília, o Beirute à noite é expressão máxima disso: olhar quem passa por lá é abrir um livro e seguir sua trama. Os freqüentadores se transvestem em seus próprios personagens, ficções pessoais que se realizam para que aquela faceta mais interessante responda pela totalidade de sua pessoa. (Escolhas, como a escolha que eu faço neste blog). São dandies e vamps meio fajutos, militantes do rótulo moderno, mas todos válidos de se olhar a pequenez. Patéticos e deliciosos... exatamente como eu.

Um mundo para ser lido é um mundo para ser escrito.

Sento neste café e fico curiando as pessoas (curiosidade em forma de verbo, um vocábulo da minha infância). Espero o começo do filme, o maître briga com o gerente, ouço a conversa das pessoas do café, um senhor destrata a moça do caixa, mas se desfaz em delicadezas para com sua filha adolescente, escrevo de trás para a frente do caderno. Quero prolongar este momento para sempre, apesar de ser um momento bobo, um momento trivial, besta demais gritam minhas raízes mineiras. Em Brasília também há cafés e cinemas e gerentes que brigam com maîtres e cadernos que se escrevem ao contrário. Mas quero estar aqui. Qual o fascínio de um outro lugar?...

Entro no cinema e embarco, sem saber, num filme de três horas. Durmo a primeira hora inteira, sem pudores ou arrependimento. Meu sono se mescla ao filme. Meu sono faz parte da experiência do filme. Tenho um sonho em preto-e-branco para acompanhar um filme monocromático (monocromáticos psíquicos, leio no artigo). Quando saio, a cidade foi lavada de cinza pela chuva, para acompanhar meu sonho.

Este blog mesmo é meio fajuto.

O que eu gostaria, deste blog, é que ele apresentasse uma qualidade específica, uma certa ‘essencialidade’, que não se deixasse levar por jogos de palavras banais, por constatações superficiais, que não se sustentasse em pequenos narcisismos imaginários. Que me acompanhasse no que me tem acontecido: alguns disfarces, por mais amados que sejam, acabam por cair; alguns enigmas, até então ignorados, emergem como possessões. Gostaria que também minha escritura tivesse esta qualidade de silêncio, crueldade e aceitação. Como se, ao contrário de ler as linhas do destino na palma da mão, lêssemos as veias, finas e arroxeadas, logo abaixo da pele mais transparente. Lidas tais veias, as linhas da palma da mão se desarranjam para sempre e pele, destino e personalidade, últimas fortalezas do narcisismo, se vão.

A alergia continua. Acordo todos os dias com cara de ressaca: nariz vermelho, olhos inchados, olheiras enegrecidas (o pó da fuligem se acumula sobre os móveis e sobre as concavidades do corpo). Sou proibida, por medida de segurança, de usar minhas estrelinhas vermelhas no peito. A cidade também parece ignorar as eleições. Atravessando a rua, ouvimos um grito desarranjar (estou apaixonada por este verbo, agora) a tranqüilidade do domingo. Do outro lado da rua, um homem cai, num ataque epiléptico. Os passantes desviam o passo, um carro pára de qualquer jeito e alguém desce para ajuda-lo.

Mais um tropeço na Paulista e volto para casa com o tornozelo torcido, meio mancando no aeroporto Juscelino Kubitschek...mancada, manquer, demi-manquer?..