28.8.06

Refugo Humano - Entrevista com Luiz Carlos Fridman

Uma das exigências dos seqüestradores da equipe da TV Globo em SP era aparecer na televisão. No vídeo eles fazem uma série de exigências, mas seqüestram o jornalista pedindo em troca a exibição do vídeo. A partir dessa constatação, gostaria de perguntar se a sociedade está se dividindo entre pessoas e não-pessoas, entre visíveis e invisíveis?

– Não, mas estamos nos dividindo entre aqueles que têm uma vida para viver e os que não têm. Na economia contemporânea é o contrário do capitalismo industrial clássico. No capitalismo contemporâneo, que se move à velocidade do sinal eletrônico e que aplica intensa, ininterrupta e sucessivamente tecnologia à produção da riqueza material, criou-se uma nova categoria que é o refugo humano. O velho Marx falava em exército industrial de reserva, mas o exército industrial de reserva acabou. Não existe mais. O exército industrial de reserva eram as pessoas que não estavam alocadas na divisão social do trabalho, mas que iriam ser integradas, mais cedo ou mais tarde, ou poderiam vir a ocupar um lugar na divisão social do trabalho. O refugo humano é gente que não ocupou, não ocupa e não ocupará lugar nenhum na divisão social do trabalho. Isso acontece no Brasil, assim como na Ásia, na África e nos demais países da América Latina. Com a presença do terceiro mundo no primeiro mundo, também vai acontecer no primeiro mundo. O último filme do Costa Gravas, “O Corte”, trata dessa questão, só que ao nível dos executivos. Aquilo é a insegurança com o emprego, o efeito daqueles que estiveram empregados no mundo do desemprego estrutural.

(...)

O universo fica restrito ali, configura-se um gueto. E como fazer a partir daí uma conexão com o PCC, o seqüestro do jornalista em SP?

– Esse já é um patamar diferente. Nesse aprendizado precário no interior das instituições carcerárias, vão surgindo as formas perversas do crime, a ponto de o crime ameaçar a sociedade. Na verdade, acaba sendo a forma como eles aterrorizam que os habilita a ser uma força – que não é terrorista (o terrorismo em geral obedece a propósitos de valor, ou religiosos ou políticos), mas os habilita como força perante a sociedade. Acho que ele quer aparecer na televisão para ser habilitado enquanto força a ser considerada pelas instituições carcerárias. Essa é uma ameaça terrível, pois eles se dispõem a utilizar a violência de maneira indiscriminada, impondo sacrifícios a todos os grupos e instituições. Isso é uma ameaça ao Estado de direito democrático, que precisa se defender e defender a população. Sem essa adição, a “interpretação sociológica” fica leniente com as aberrações evidentes como a morte de civis ou seqüestros de jornalistas.

Falar de saúde, educação e segurança não é fazer programa de governo

"A melhor maneira de se evitar falar do essencial não é ficar quieto. É falar de tudo o que é secundário, sem estabelecer ligações e conexões entre as coisas. Tudo é verdade, policlínicas são legais, metrô desafoga trânsito e escolas modernas apresentam vantagens. Mas são idéias parciais, meias-idéias, que parecem viáveis. Basta estilhaçar as informações e apresentá-las como se não fizessem parte do mesmo planeta ou cidade, para desorientar qualquer um. Não há interesses a serem contrariados ou favorecidos. Como são sugestões soltas, volta e meia aparece um candidato alegando ter sido plagiado por outro. O que se apresenta como programa político não é programa e muito menos é algo político. É aplicar a marquetagem com o propósito de entreter o público, enquanto os negócios seguem em frente.

O debate sobre segurança pública é, de todos, talvez o que mais se ressinta dos males da fragmentação. O país vive uma situação de caos na área e os programas das candidaturas, com poucas exceções, não passam da cantilena de “leis mais duras”, “mais energia”, “mais presídios”, “rota na rua” e lorotas do tipo. Não se faz uma ligação com o fato do país não crescer há 25 anos, com uma das piores distribuições de renda e de riqueza do mundo e incapaz de gerar empregos suficientes para absorver a juventude que ano a ano chega ao mercado de trabalho."

Artigo: Gilberto Maringoni
Site: www.cartamaior.com.br

24.8.06

Come on

I must be feeling low
I talked to god in a phonebox on my way home
I told you my answer
I left you my dreams on your answering machine

The Verve

Exercício de Desmemória

A memória é um excesso que transborda em apego e localizações monolíticas. Eu gostaria de estar tranqüila em relação a isso, estar jogando futebol (mesmo que eu não saiba como fazê-lo, realizar o devir-jogador de futebol, o filósofo diria) ou participar de uma peça infantil (apesar de eu não ser uma atriz). Ao contrário de estar aqui, agora, nesta casa, embrulhada num cobertor e o ar condicionado que eu mesma liguei, contra algo que nem a psicanálise nem a literatura nem a musica de Chico Buarque podem me dizer o que é.

Eu vivo no passado. Acredito que o futuro se desdobra a partir de uma cadeia anterior, que o futuro está já atrelado a algo que aconteceu, agora agorinha ou vinte anos atrás. Eu vivo do passado. Eu não largo dele – por isso não consigo assistir à novela ou ter um bicho de estimação ou cantar muito alto. As coisas vão se ancorando em mim – os acontecidos e aquilo que ficou por um triz de acontecer, mas mesmo assim eu imaginei; os sonhos que eu não esqueço; os gestos que se transformam em fotografias e, de fotografias, em cicatrizes – eu vivo e mantenho tudo-isso-que-não-é-mais ainda em funcionamento também.

Minha vida parece compacta (compactada?): vinte e tantos anos podem ser reduzidos a uma seqüência curta de fatos certeiros, tão bem enraizados que faço deles uma história. Ficção – cada um escolhe a sua. Mas a minha é amarrada demais, fechada sobre si mesma – não se propõe esquecer, dar a volta, começar de novo.

Tento organizar os acontecimentos da melhor forma possível, arranjá-los segundo um sentido. Pergunto-me o que aconteceu há cinco dias, há quatro meses, há vinte anos, até encontrar a raiz do que me aconteceu ainda ontem. Quero tirar satisfações com os protagonistas daquelas ações. Mas sou constantemente derrotada pela pregnância, pela insistência de imagens na memória, pelos sentimentos escandalosos – amor ou ódio não exigem menos que a morte do objeto – pelas falhas nas equações que tracei entre os fatos para torná-los causa e conseqüência.

Não quero mais memória. Vou dedicar meus dias, a partir de agora, ao exercício conduzido e contínuo do apagamento das lembranças. Os acontecidos têm, de hoje em diante, um prazo de permanência de 17 minutos até seu absoluto desaparecimento. (O rosto das pessoas é que há de mais maléfico, mais difícil de ser des-registrado neste meu projeto).

Não vou olhar muito para um ângulo específico, para não criar lembranças do mundo, vou manter os sentidos límpidos, intocados, canais que recebam apenas ar frio e água barrenta. Quero que os acontecimentos escorreguem pela pele – lisa, reconchuda e protegida pela gordura –, que escorreguem até cair no chão e ficar por lá. Os acontecidos, as pessoas e seus nomes, os filmes, as imagens. Permito apenas que a música, ao contrário, se mantenha – porque aí não há palavras para me aprisionar.

De hoje em diante, sacio apenas pequenas fomes, fomes pontuais. Saciando a fome, eu esqueço a fome e não guardo do alimento nem seu sabor de mundo.

E quem quiser que conte outra.




...mas contei outras coisas também, de como tinha sonhado com ela e o que ela fazia no sonho. Me lembro de ter dito: “há potencial para isso” (para o quê?, me pergunto). Não me lembro qual foi a pergunta e construo esta imaginação de resposta.

A linguagem funda um mundo desolador e angustiante. Para diminuir isso, suspender este imperativo, é preciso voltar à ela, à linguagem mesma e utilizá-la – sem instrumentalizá-la – utilizá-la para revestir o mundo, revestir os atos e as coisas, revestir com novos nomes, se embolar na linguagem, jurando que ela é o mundo, para que o mundo seja refundado. Não pensar ‘isto é só uma noite’, mas dizer ‘este é um objeto estético perfeito', ‘um sentido de beleza', não ignorar um sonho, mas entremeá-lo numa seqüência narrativa, numa história que possa ser contada. Pensar que um objeto até então perdido foi encontrado. E que vai ser perdido de novo e que eu preciso contar uma outra história para reavê-lo.

Depois de uma infecção de garganta – febres de 39º, comprimidos antibióticos do tamanho da minha unha, dificuldade para engolir até água – o mundo parece até muito mais bonito mesmo. E algo incrível, de fato, aconteceu. Eu esqueci tudo, quero dizer, não esqueci, mas perdi todas as imagens como alguém que perde os negativos de uma festa. Um sentimento de surrealidade corroeu o fato, além de uma simpática indiferença (aconteceu? não aconteceu? não importa, está tudo bem...). Procurei fotos da menina porque esqueci qual era mesmo a causa do fascínio que senti por ela. Devo ter esquecido seu rosto, porque em nenhuma delas consegui reconhecê-la.

18.8.06

Percebo que, hoje, entrei para o clube

You don't realise until you're forty or so
that by then everyone of your age or more
is walking around with some old wound that's buryed
back of the eyes or somewhere under the coat.

Even then you forget that some of those you pass
wtih a nod on the road every day took their hits
quiet early on, though you may not remember ever
seem them stumble or fall or hearing them moan

since that was before the water cleared to show
that wounding seems part of some general plan, with rules
that are not just bloody unfair, they're bloody unknown.
Strange how it took so long for the light to dawn

that sooner or later your own due turn would come
to take one in the shoulder or the gut,
eintitling you to limp into the club
a member in good standing, now fully paid-up.

7.8.06

6.8.06

Oco da língua

“Quando a linguagem chega a se erigir senhora absoluta, a ignorar do que ela se constitui herdeira – de uma sucessão de mortes e assassinatos –, quando desconhece que sua aparente luz não passa de uma sombra alcançada, então, o ‘oco’ vem lembrá-la disso. Se ela esquece a perda que ela própria contém, é preciso perdê-la, abandoná-la à sua arrogância. Quando voltarmos a encontrá-la, ela não se ouvira falando sozinha, se lembrará de sua ausência, graças a nossa; talvez nós tenhamos, por nossa vez, lhe feito falta.”

Amor dos Começos
J.-B. Pontalis

5.8.06

I want to go home

Do leão e da apreciação de suas qualidades

Suponha, então, algo característico e único do homem, que se chama ‘humano’. Das aves, diz-se ‘voador’ (do voar vivo que bate as asas, no movimento de vontade de vôo); nos macacos, reconhecemos o ‘símio’; dos morcegos, chamamos ‘noturno’ (ou ‘noctívago’). Nos leões, nomeia-se a esta específica qualidade ‘leonino’.

Mas suponha, então, uma fusão, um mesclar de tais qualidades que afronta a lei da exclusividade taxonômica. As sereias eram meio-peixes, meio-mulheres, meio-monstros. A esfinge era, ao mesmo tempo, ave, leoa, fêmea e faminta (além de levemente histérica em seus enigmas). Luis Coimbra é meio-homem, meio-leão.

Se a qualidade do humano é imediata e inegável, em Luis, a qualidade leonina é fugidia, econômica e exige prospecção. É preciso ter consigo algo como o mapa do reino dos seres imaginários (Borges) que nos avise a que sinais prestar atenção.

No rosto, por exemplo, os traços de uma estirpe real, caracterizada pela impenetrabilidade da raça, em que a juba se espalha, lança-se para trás e mantém-se erguida, indignada consigo e com o humano. O corpo compartilha também dos gestos dos grandes felinos; ele sobe pela rocha com a mesma desfaçatez dos gatos que sempre caem de pé (neste ponto, a humanidade de Luís Coimbra se sobrepõe, deixando-o, ao contrário dos gatos, frágil, demasiado frágil). Até o arco das sobrancelhas, em seus reflexos loiro-acinzentados, confirma a semelhança dos traços, quando se erguem num movimento aristocrático e ciumento.

A semelhança é consistente, densa, carnal; vislumbra-se a herança leonina espiritual, ainda que entranhada no corpo, ainda que manifesta na extensão material. Não raro as pessoas sentem – e me confesso vítima desta ilusão – uma certa animosidade, uma indisposição de Luis; nada mais que a porção leão estranhando a humanidade. Estranhamento travado entre as zigomas – ou melhor dizendo, entre as mandíbulas...

24.7.06

Uma segunda chance

…se eu pudesse começar tudo de novo, Deus – com a barba de Marx ou saído dos delírios de Schreber – desceria de uma nuvem e me concederia o maior dos desejos que apenas os maiores arrependimentos podem tecer. Ele desceria e lhe diria – ‘tudo de novo, desde o começo, do jeito que você quiser, tudo refeito, você escolhe onde nascer, de quem nascer, uma página em branco, as variáveis e as constantes são suas e só suas, o experimento é você quem comanda’ (Deus fala a linguagem das estatísticas).

Ainda assim, nada disso adiantaria. O problema é anterior às situações e suas alterações, às determinações de classe, nacionalidade, cor... O problema, pensa, é ele mesmo. Irredutível, indissolúvel, não solucionável. Pesando demais – lhe cansa carregar-se assim, lhe cansa que o mais discreto em si é sempre gritante para os outros, ou que o mais expansivo é um mistério que o isola dos outros.

Tudo isso possui o potencial do absoluto, do Demais; para além da simbolização, da sublimação, da ebulição. Não se desfaz. Sempre foi assim. E sempre foi esta alternância, esta tensão impossível de síntese: ele precisa se impor, para além dos outros, ele precisa demonstrar, através de critérios: eu sou (ainda em suas comparações com Deus), para além de quem eu sou ou de o que eu sou, os critérios que sejam: intelectuais, carismáticos, sexuais, quais sejam. Sejam quais você quiser. De outro lado, o desejo desesperado de entrar numa espiral de desaparecimento, secar até virar um umbigo e, depois, não virar nada, desaparecer numa nuvem de absolutamente nada – mas um Nada assim auto-sustentável, anterior, auto-referenciável. E, caso sobrasse alguma coisa, uma coisinha de nada, esta coisa se auto-implicaria até que nada mais sobrasse de si mesma. Não é que ele tenha perigosos segredos – é que ele mesmo é um segredo, concreto, ambulante, espalhafatoso, mas ainda secreto.

E as mulheres, então? As mulheres... Elas estão sempre lá, física ou fantasiosamente, lhe esperando na curva de uma esquina, no momento em que abre inadvertidamente uma porta, umas vampiras prontas para sugar até a última gota da sua imaginação e libido. Ele sabe, no primeiro momento que as vê, o que vai acontecer. É um dor localizada, como um prenúncio, um sinal, exatamente no alto de seu estômago, uma lâmina que raspasse, num momento ínfimo, a sexta costela do lado esquerdo, e, depois, de súbito, a dor desaparecesse, ficando apenas a ordem. Esta dor marca a visão, esta dor é um imperativo, a dor cria a visão. Elas sabem, é claro, e exigem dele sempre grandes atos: a perseguição amorosa, por exemplo, que cria nele uma sensibilidade perigosa que beira o desgaste, ele deve ficar sempre a um passo, sempre a pender nas bordas da paixão, de tal forma que uma brisa, o vento entrando por uma porta aberta poderia te fazer cair.

Estas mulheres são como máquinas – as máquinas não são conscientes do estrago que fazem quando estão desreguladas, as máquinas obsessivas, então, nem se fala: os cortadores de grama vão andando sozinhos, as ceifadeiras atravessam a rua, os sinais mudam de cor de uma forma esquizofrênica, indiferentes aos carros retorcidos e aos corpos destroçados, etc, etc... Ou como doenças: os vírus e as bactérias não tem intenção de machucar ninguém, coitadinhos, mas isso não diminui a intensidade do estrago que eles fazem (você preenche isso com outras imagens, imagens bonitas). E, no fim das contas, tudo o que ele pode fazer é tentar injetar algum remorso na mente destas máquinas, no coração destas doenças.

Ele não exigia menos – ele não deixava passar. Tratava-se de uma estratégia para domar as coisas: domar a fúria com gentilezas desproporcionais; domar o desprezo às pessoas, a vontade de socá-las até que elas entendam, com uma paciência infinita e desimplicada, multiplicada em 'por favores' e 'obrigados'; domar tudo de obscuro, de vergonhoso – sexualmente vergonhoso, se for o caso – tentando não enxergar nada disso nas outras pessoas. Domar o sujo colocando as coisas sempre de um jeito bonito. Domar a obsessão treinando a distração. Domar o remorso cultivando o esquecimento. Mas as estratégias nem sempre dão certo, mesmo que – e pode ter certeza disso – ele tenha aplicado uma força, uma vontade de ferro nisso tudo. Mas as barras de ferro, de muito enferrujadas, envergam, provocando pequenas dissoluções na realidade, como os contornos que se perdem quando você pinta a sua aquarela...

Music-erotique...

"...there's a river in my head."
ebtg

23.7.06

Paulicéias

... é tudo muito rápido, parece que, mesmo de férias, estamos todos atrasados. companheiros de doze minutos de trajeto comum do metrô. não dá para olhar as pessoas, acarinhá-las com olhar, espiá-las, espiar o título do livro que estão lendo, achar a posição mais discreta para ouvir o que conversam sem que elas possam perceber, adivinhar – ou inventar – suas histórias, pensar qual seria a arvore genealógica que criou tal e tal rosto, o que comanda a posição do corpo. a impressão é de uma grande mistura, de gentes saindo do metrô e sendo liquefeitas numa massa anônima, um caldo heterogêneo...

... falo do fundo da rinite que me atacou assim que coloquei os pés na cidade, ainda na marginal tietê; minha voz sai como que submergida, o nível da água bem acima da minha cabeça; vejo o espanto no olhar dos outros, não porque saiam bolhinhas de ar da minha boca quando falo mas porque, simplesmente, não me ouvem; enquanto isso, da inundação causada pela doença, a voz implode dentro da minha cabeça, de dentro para fora, alta, tão alta, contra os ouvidos...

... da pequena farmácia que trago sempre comigo – o primeiro comprimido para fazer dormir, o segundo para tentar secar a rinite, o terceiro, bem, o terceiro porque não sou tão alta assim – descubro que os remédios não funcionam muito bem juntos, funcionam em curto-circuito: acordo, de madrugada, sentindo o nariz borbulhar, enquanto os pés se expandem para o lado de fora da cama...

...na loja de roupas, a cliente, de dentro do provador, pede uma outra blusa para a atendente. ela diz:
- Eu estava te procurando. Este número está grande demais.
- Claro, já busco. Qual seu nome?
- Ducha. E o seu?
- Leka.
Um encontro perfeito.

... tenho um tombo tão poderoso, que as pedras da avenida paulista pulam na minha queda. caio como um gigante – apesar dos parcos 1,60m – , uma estátua de mármore que se decompõe, e as pedras do calçamento me sabem um lutador de sumô, apesar das balanças – seres menos impressionáveis – acusarem pouco mais de 50 quilos...

...depois de três dias, é possível se sentir mais em casa, apesar do que, ao contrário dos nativos, ainda ando na rua com todo o meu kit-inverno: casaco, cachecol, luva, etc. deixo de pentear o cabelo e visto roupas desencontradas; entro na primeira livraria com promoção de R$ 9,90. tiro os sapatos enquanto folheio os livros e deixo a vista as meias, também desencontradas, que comprei ontem. passeio empurrando meus sapatos com pequenos chutes, os calço apenas quando acho algo muito interessante (George Perec, “A Coleção Particular”). ninguém se espanta, não afronta ninguém. não há esquisitice – deliberada ou involuntária – que a paulicéia não abarque, nenhuma esquisitice que a cidade não comporte e conserve...

Teatro Oficina e Zé Celso



Os Sertões


22.7.06

Eu amo este homem...

Zé Celso - É, espalhados pelo Brasil. Em cada lugar um nome, Euclides da Cunha, outros. Eles nos chamavam de Águias Brancas. (ri) A gente não tinha a menor idéia do que havia por trás. Mas tem aí um lado do meu amor pelo Brasil, por Villa-Lobos, por Getúlio (Vargas, ex-presidente). Pelo populismo, pelo (ex-governador Leonel) Brizola, meu amor confesso, declarado, total pelo Brizola. Todos esses pecados (ri). Eu escrevi outro dia sobre um comentário que o (colunista da Folha, Arnaldo) Jabor fez de teatro. Fui respondido oralmente. Ele disse que eu estava, como o Glauber (Rocha, cineasta) nos últimos anos dele, louco. Me fez este elogio. E de repente vem este livro que revela a intuição do Glauber. Eu gosto porque o Giba vê no Glauber uma leitura do Brasil. Tem um artista ali, mas também um Padre Vieira. Digo Glauber, mas nós fomos formados por um outro, Hélio Rocha, um grande orador que percorria o Brasil em conferências nos centros culturais. Tivemos essa mesma formação, que depois foi para a esquerda, para o Iseb. E o Glauber antevia. Na esquerda tradicional, paulista, essa que está no poder, hoje à direita, faltava um sentimento de povo novo, da especificidade desta civilização. O Glauber chegava e dizia, ''essas pessoas te odeiam''.

(...)

Folha - O irracionalismo seria um risco para a democracia.
Zé Celso - Mas foi uma democracia que mandou Sócrates tomar cicuta. Eu acho que não tem democracia nenhuma, hoje. Eu estou convidado a tomar cicuta, só que não vou, porque eu acredito que o Brasil vai... Aquele lugar da rua Jaceguai, o Oficina, é um foco de esmagamento, das secretarias de Cultura, do Ministério Público. Não é desinteresse, é rejeição explícita. Realmente o Glauber tem razão. Eles odeiam. Agora, isso tudo toca no toque. Schwarz escreveu um artigo sobre ''Roda Viva'', essa coisa do teatro da agressão, e o Anatol também, sobre ''Gracias Señor''. Em ''Gracias Señor'' eu tive a audácia de tirar os óculos e dar um passe nele, com plantas. Eu tive a generosidade de tentar vê-lo fora da figura, porque eu gostava, gosto dele. Aquele guarda-chuva, aquele professor alemão clássico... Por outro lado, fui carregado pelo (físico) Mário Schenberg. Esse sim. Na cena da morte, eu ficava sem falar, lobotomizado. Era o primeiro ano do Médici no poder. O Schenberg, já um senhor, me pôs nas costas e subiu a escadaria do Ruth Escobar até a rua. São pessoas que usam a razão, mas sabem que tem razão no toque, no corpo. E o teatro é o lugar disso.

(...)

Folha - Como era a platéia do ''Rei da Vela''? Como você compara com a sua platéia, hoje?
Zé Celso - Era diferente. Nós tínhamos ainda a platéia clássica dos sábados. De repente, no ''Rei da Vela'', um público emergiu com a gente. A peça terminava com esse público gritando histericamente. Aí tinha dias em que a platéia clássica, dos quatrocentões, jogava ovos, chamava Oswald de Andrade no peito. Foi uma reação, mas como havia esse corpo novo... Principalmente depois do Rio. A peça explodiu mesmo no Rio, junto com ''Roda Viva''.

Folha - Artaud. Quando foi que você teve contato com Artaud (dramaturgo e teórico do teatro francês. Em "O Teatro e seu Duplo" (1938), definiu sua concepção de teatro, que chamava "teatro da crueldade". Recusava a tradição ocidental, defendendo um contato violento e direto entre ator e público).
Zé Celso - Foi junto com o Oswald, porque ele imediatamente espalha o campo das mediações e acaba tocando no Artaud. Em ''Roda Viva'', do Chico (Buarque, músico), o Artaud também me veio forte. ''Roda Viva'', que era um coro, vira uma tribo faminta, um corpo sem órgãos. No comportamento coletivista, era de uma crueldade devoradora, de um apetite quase inenarrável.


site: http://www.teatrobrasileiro.com.br/entrevistas/zecelso1.htm

Entrevista - Tarso Genro

ISTOÉ – Quais os grandes perigos para a reeleição do presidente?
Tarso Genro – Que o baixo nível do debate proporcione um afastamento da cidadania do processo eleitoral. Há uma tendência à simplificação quando se debatem determinados assuntos. A simplificação significa acusações de baixo calão. Elas despolitizam o pleito e afastam a população, principalmente as camadas médias e mais desprovidas. Setores em que o presidente tem um acolhimento muito grande.

ISTOÉ – Qual a saída?
Tarso Genro – Não permitir que o debate baixe de nível porque isso favorece a democracia e, na minha opinião, a reeleição.

ISTOÉ – O que o sr. chama de baixar o nível? Explorar o envolvimentodo PT no mensalão?
Tarso Genro – Não se pode transformar a eleição numa espécie de corruptômetro. Caso contrário, vamos reduzir o processo eleitoral a acusações. Por exemplo: a partir de determinados ataques, se começa a discutir compra de uma emenda constitucional para reeleição ou a selvageria e ilegalidades nas privatizações. Não se trata, com isso, de temer um debate sobre ética pública. Mas os grandes problemas sobre esse tema no Brasil derivam da falência do atual sistema político e não apenas do planejamento de meia dúzia de indivíduos. A corrupção no Estado brasileiro é sistêmica. Para que baixemos a taxa de ilegalidade, proveito pessoal em cargos públicos e até mesmo de corrupção, temos que prosseguir no caminho do desenvolvimento, das reformas, da educação, do crescimento econômico e no aprofundamento do controle da sociedade sobre o Estado.




site: http://www.terra.com.br/istoe/1918/entrevista/1918_vermelhas_01.htm