…se eu pudesse começar tudo de novo, Deus – com a barba de Marx ou saído dos delírios de Schreber – desceria de uma nuvem e me concederia o maior dos desejos que apenas os maiores arrependimentos podem tecer. Ele desceria e lhe diria – ‘tudo de novo, desde o começo, do jeito que você quiser, tudo refeito, você escolhe onde nascer, de quem nascer, uma página em branco, as variáveis e as constantes são suas e só suas, o experimento é você quem comanda’ (Deus fala a linguagem das estatísticas).
Ainda assim, nada disso adiantaria. O problema é anterior às situações e suas alterações, às determinações de classe, nacionalidade, cor... O problema, pensa, é ele mesmo. Irredutível, indissolúvel, não solucionável. Pesando demais – lhe cansa carregar-se assim, lhe cansa que o mais discreto em si é sempre gritante para os outros, ou que o mais expansivo é um mistério que o isola dos outros.
Tudo isso possui o potencial do absoluto, do Demais; para além da simbolização, da sublimação, da ebulição. Não se desfaz. Sempre foi assim. E sempre foi esta alternância, esta tensão impossível de síntese: ele precisa se impor, para além dos outros, ele precisa demonstrar, através de critérios: eu sou (ainda em suas comparações com Deus), para além de quem eu sou ou de o que eu sou, os critérios que sejam: intelectuais, carismáticos, sexuais, quais sejam. Sejam quais você quiser. De outro lado, o desejo desesperado de entrar numa espiral de desaparecimento, secar até virar um umbigo e, depois, não virar nada, desaparecer numa nuvem de absolutamente nada – mas um Nada assim auto-sustentável, anterior, auto-referenciável. E, caso sobrasse alguma coisa, uma coisinha de nada, esta coisa se auto-implicaria até que nada mais sobrasse de si mesma. Não é que ele tenha perigosos segredos – é que ele mesmo é um segredo, concreto, ambulante, espalhafatoso, mas ainda secreto.
E as mulheres, então? As mulheres... Elas estão sempre lá, física ou fantasiosamente, lhe esperando na curva de uma esquina, no momento em que abre inadvertidamente uma porta, umas vampiras prontas para sugar até a última gota da sua imaginação e libido. Ele sabe, no primeiro momento que as vê, o que vai acontecer. É um dor localizada, como um prenúncio, um sinal, exatamente no alto de seu estômago, uma lâmina que raspasse, num momento ínfimo, a sexta costela do lado esquerdo, e, depois, de súbito, a dor desaparecesse, ficando apenas a ordem. Esta dor marca a visão, esta dor é um imperativo, a dor cria a visão. Elas sabem, é claro, e exigem dele sempre grandes atos: a perseguição amorosa, por exemplo, que cria nele uma sensibilidade perigosa que beira o desgaste, ele deve ficar sempre a um passo, sempre a pender nas bordas da paixão, de tal forma que uma brisa, o vento entrando por uma porta aberta poderia te fazer cair.
Estas mulheres são como máquinas – as máquinas não são conscientes do estrago que fazem quando estão desreguladas, as máquinas obsessivas, então, nem se fala: os cortadores de grama vão andando sozinhos, as ceifadeiras atravessam a rua, os sinais mudam de cor de uma forma esquizofrênica, indiferentes aos carros retorcidos e aos corpos destroçados, etc, etc... Ou como doenças: os vírus e as bactérias não tem intenção de machucar ninguém, coitadinhos, mas isso não diminui a intensidade do estrago que eles fazem (você preenche isso com outras imagens, imagens bonitas). E, no fim das contas, tudo o que ele pode fazer é tentar injetar algum remorso na mente destas máquinas, no coração destas doenças.
Ele não exigia menos – ele não deixava passar. Tratava-se de uma estratégia para domar as coisas: domar a fúria com gentilezas desproporcionais; domar o desprezo às pessoas, a vontade de socá-las até que elas entendam, com uma paciência infinita e desimplicada, multiplicada em 'por favores' e 'obrigados'; domar tudo de obscuro, de vergonhoso – sexualmente vergonhoso, se for o caso – tentando não enxergar nada disso nas outras pessoas. Domar o sujo colocando as coisas sempre de um jeito bonito. Domar a obsessão treinando a distração. Domar o remorso cultivando o esquecimento. Mas as estratégias nem sempre dão certo, mesmo que – e pode ter certeza disso – ele tenha aplicado uma força, uma vontade de ferro nisso tudo. Mas as barras de ferro, de muito enferrujadas, envergam, provocando pequenas dissoluções na realidade, como os contornos que se perdem quando você pinta a sua aquarela...
24.7.06
23.7.06
Paulicéias
... é tudo muito rápido, parece que, mesmo de férias, estamos todos atrasados. companheiros de doze minutos de trajeto comum do metrô. não dá para olhar as pessoas, acarinhá-las com olhar, espiá-las, espiar o título do livro que estão lendo, achar a posição mais discreta para ouvir o que conversam sem que elas possam perceber, adivinhar – ou inventar – suas histórias, pensar qual seria a arvore genealógica que criou tal e tal rosto, o que comanda a posição do corpo. a impressão é de uma grande mistura, de gentes saindo do metrô e sendo liquefeitas numa massa anônima, um caldo heterogêneo...
... falo do fundo da rinite que me atacou assim que coloquei os pés na cidade, ainda na marginal tietê; minha voz sai como que submergida, o nível da água bem acima da minha cabeça; vejo o espanto no olhar dos outros, não porque saiam bolhinhas de ar da minha boca quando falo mas porque, simplesmente, não me ouvem; enquanto isso, da inundação causada pela doença, a voz implode dentro da minha cabeça, de dentro para fora, alta, tão alta, contra os ouvidos...
... da pequena farmácia que trago sempre comigo – o primeiro comprimido para fazer dormir, o segundo para tentar secar a rinite, o terceiro, bem, o terceiro porque não sou tão alta assim – descubro que os remédios não funcionam muito bem juntos, funcionam em curto-circuito: acordo, de madrugada, sentindo o nariz borbulhar, enquanto os pés se expandem para o lado de fora da cama...
...na loja de roupas, a cliente, de dentro do provador, pede uma outra blusa para a atendente. ela diz:
- Eu estava te procurando. Este número está grande demais.
- Claro, já busco. Qual seu nome?
- Ducha. E o seu?
- Leka.
Um encontro perfeito.
... tenho um tombo tão poderoso, que as pedras da avenida paulista pulam na minha queda. caio como um gigante – apesar dos parcos 1,60m – , uma estátua de mármore que se decompõe, e as pedras do calçamento me sabem um lutador de sumô, apesar das balanças – seres menos impressionáveis – acusarem pouco mais de 50 quilos...
...depois de três dias, é possível se sentir mais em casa, apesar do que, ao contrário dos nativos, ainda ando na rua com todo o meu kit-inverno: casaco, cachecol, luva, etc. deixo de pentear o cabelo e visto roupas desencontradas; entro na primeira livraria com promoção de R$ 9,90. tiro os sapatos enquanto folheio os livros e deixo a vista as meias, também desencontradas, que comprei ontem. passeio empurrando meus sapatos com pequenos chutes, os calço apenas quando acho algo muito interessante (George Perec, “A Coleção Particular”). ninguém se espanta, não afronta ninguém. não há esquisitice – deliberada ou involuntária – que a paulicéia não abarque, nenhuma esquisitice que a cidade não comporte e conserve...
... falo do fundo da rinite que me atacou assim que coloquei os pés na cidade, ainda na marginal tietê; minha voz sai como que submergida, o nível da água bem acima da minha cabeça; vejo o espanto no olhar dos outros, não porque saiam bolhinhas de ar da minha boca quando falo mas porque, simplesmente, não me ouvem; enquanto isso, da inundação causada pela doença, a voz implode dentro da minha cabeça, de dentro para fora, alta, tão alta, contra os ouvidos...
... da pequena farmácia que trago sempre comigo – o primeiro comprimido para fazer dormir, o segundo para tentar secar a rinite, o terceiro, bem, o terceiro porque não sou tão alta assim – descubro que os remédios não funcionam muito bem juntos, funcionam em curto-circuito: acordo, de madrugada, sentindo o nariz borbulhar, enquanto os pés se expandem para o lado de fora da cama...
...na loja de roupas, a cliente, de dentro do provador, pede uma outra blusa para a atendente. ela diz:
- Eu estava te procurando. Este número está grande demais.
- Claro, já busco. Qual seu nome?
- Ducha. E o seu?
- Leka.
Um encontro perfeito.
... tenho um tombo tão poderoso, que as pedras da avenida paulista pulam na minha queda. caio como um gigante – apesar dos parcos 1,60m – , uma estátua de mármore que se decompõe, e as pedras do calçamento me sabem um lutador de sumô, apesar das balanças – seres menos impressionáveis – acusarem pouco mais de 50 quilos...
...depois de três dias, é possível se sentir mais em casa, apesar do que, ao contrário dos nativos, ainda ando na rua com todo o meu kit-inverno: casaco, cachecol, luva, etc. deixo de pentear o cabelo e visto roupas desencontradas; entro na primeira livraria com promoção de R$ 9,90. tiro os sapatos enquanto folheio os livros e deixo a vista as meias, também desencontradas, que comprei ontem. passeio empurrando meus sapatos com pequenos chutes, os calço apenas quando acho algo muito interessante (George Perec, “A Coleção Particular”). ninguém se espanta, não afronta ninguém. não há esquisitice – deliberada ou involuntária – que a paulicéia não abarque, nenhuma esquisitice que a cidade não comporte e conserve...
22.7.06
Eu amo este homem...
Zé Celso - É, espalhados pelo Brasil. Em cada lugar um nome, Euclides da Cunha, outros. Eles nos chamavam de Águias Brancas. (ri) A gente não tinha a menor idéia do que havia por trás. Mas tem aí um lado do meu amor pelo Brasil, por Villa-Lobos, por Getúlio (Vargas, ex-presidente). Pelo populismo, pelo (ex-governador Leonel) Brizola, meu amor confesso, declarado, total pelo Brizola. Todos esses pecados (ri). Eu escrevi outro dia sobre um comentário que o (colunista da Folha, Arnaldo) Jabor fez de teatro. Fui respondido oralmente. Ele disse que eu estava, como o Glauber (Rocha, cineasta) nos últimos anos dele, louco. Me fez este elogio. E de repente vem este livro que revela a intuição do Glauber. Eu gosto porque o Giba vê no Glauber uma leitura do Brasil. Tem um artista ali, mas também um Padre Vieira. Digo Glauber, mas nós fomos formados por um outro, Hélio Rocha, um grande orador que percorria o Brasil em conferências nos centros culturais. Tivemos essa mesma formação, que depois foi para a esquerda, para o Iseb. E o Glauber antevia. Na esquerda tradicional, paulista, essa que está no poder, hoje à direita, faltava um sentimento de povo novo, da especificidade desta civilização. O Glauber chegava e dizia, ''essas pessoas te odeiam''.
(...)
Folha - O irracionalismo seria um risco para a democracia.
Zé Celso - Mas foi uma democracia que mandou Sócrates tomar cicuta. Eu acho que não tem democracia nenhuma, hoje. Eu estou convidado a tomar cicuta, só que não vou, porque eu acredito que o Brasil vai... Aquele lugar da rua Jaceguai, o Oficina, é um foco de esmagamento, das secretarias de Cultura, do Ministério Público. Não é desinteresse, é rejeição explícita. Realmente o Glauber tem razão. Eles odeiam. Agora, isso tudo toca no toque. Schwarz escreveu um artigo sobre ''Roda Viva'', essa coisa do teatro da agressão, e o Anatol também, sobre ''Gracias Señor''. Em ''Gracias Señor'' eu tive a audácia de tirar os óculos e dar um passe nele, com plantas. Eu tive a generosidade de tentar vê-lo fora da figura, porque eu gostava, gosto dele. Aquele guarda-chuva, aquele professor alemão clássico... Por outro lado, fui carregado pelo (físico) Mário Schenberg. Esse sim. Na cena da morte, eu ficava sem falar, lobotomizado. Era o primeiro ano do Médici no poder. O Schenberg, já um senhor, me pôs nas costas e subiu a escadaria do Ruth Escobar até a rua. São pessoas que usam a razão, mas sabem que tem razão no toque, no corpo. E o teatro é o lugar disso.
(...)
Folha - Como era a platéia do ''Rei da Vela''? Como você compara com a sua platéia, hoje?
Zé Celso - Era diferente. Nós tínhamos ainda a platéia clássica dos sábados. De repente, no ''Rei da Vela'', um público emergiu com a gente. A peça terminava com esse público gritando histericamente. Aí tinha dias em que a platéia clássica, dos quatrocentões, jogava ovos, chamava Oswald de Andrade no peito. Foi uma reação, mas como havia esse corpo novo... Principalmente depois do Rio. A peça explodiu mesmo no Rio, junto com ''Roda Viva''.
Folha - Artaud. Quando foi que você teve contato com Artaud (dramaturgo e teórico do teatro francês. Em "O Teatro e seu Duplo" (1938), definiu sua concepção de teatro, que chamava "teatro da crueldade". Recusava a tradição ocidental, defendendo um contato violento e direto entre ator e público).
Zé Celso - Foi junto com o Oswald, porque ele imediatamente espalha o campo das mediações e acaba tocando no Artaud. Em ''Roda Viva'', do Chico (Buarque, músico), o Artaud também me veio forte. ''Roda Viva'', que era um coro, vira uma tribo faminta, um corpo sem órgãos. No comportamento coletivista, era de uma crueldade devoradora, de um apetite quase inenarrável.
site: http://www.teatrobrasileiro.com.br/entrevistas/zecelso1.htm
(...)
Folha - O irracionalismo seria um risco para a democracia.
Zé Celso - Mas foi uma democracia que mandou Sócrates tomar cicuta. Eu acho que não tem democracia nenhuma, hoje. Eu estou convidado a tomar cicuta, só que não vou, porque eu acredito que o Brasil vai... Aquele lugar da rua Jaceguai, o Oficina, é um foco de esmagamento, das secretarias de Cultura, do Ministério Público. Não é desinteresse, é rejeição explícita. Realmente o Glauber tem razão. Eles odeiam. Agora, isso tudo toca no toque. Schwarz escreveu um artigo sobre ''Roda Viva'', essa coisa do teatro da agressão, e o Anatol também, sobre ''Gracias Señor''. Em ''Gracias Señor'' eu tive a audácia de tirar os óculos e dar um passe nele, com plantas. Eu tive a generosidade de tentar vê-lo fora da figura, porque eu gostava, gosto dele. Aquele guarda-chuva, aquele professor alemão clássico... Por outro lado, fui carregado pelo (físico) Mário Schenberg. Esse sim. Na cena da morte, eu ficava sem falar, lobotomizado. Era o primeiro ano do Médici no poder. O Schenberg, já um senhor, me pôs nas costas e subiu a escadaria do Ruth Escobar até a rua. São pessoas que usam a razão, mas sabem que tem razão no toque, no corpo. E o teatro é o lugar disso.
(...)
Folha - Como era a platéia do ''Rei da Vela''? Como você compara com a sua platéia, hoje?
Zé Celso - Era diferente. Nós tínhamos ainda a platéia clássica dos sábados. De repente, no ''Rei da Vela'', um público emergiu com a gente. A peça terminava com esse público gritando histericamente. Aí tinha dias em que a platéia clássica, dos quatrocentões, jogava ovos, chamava Oswald de Andrade no peito. Foi uma reação, mas como havia esse corpo novo... Principalmente depois do Rio. A peça explodiu mesmo no Rio, junto com ''Roda Viva''.
Folha - Artaud. Quando foi que você teve contato com Artaud (dramaturgo e teórico do teatro francês. Em "O Teatro e seu Duplo" (1938), definiu sua concepção de teatro, que chamava "teatro da crueldade". Recusava a tradição ocidental, defendendo um contato violento e direto entre ator e público).
Zé Celso - Foi junto com o Oswald, porque ele imediatamente espalha o campo das mediações e acaba tocando no Artaud. Em ''Roda Viva'', do Chico (Buarque, músico), o Artaud também me veio forte. ''Roda Viva'', que era um coro, vira uma tribo faminta, um corpo sem órgãos. No comportamento coletivista, era de uma crueldade devoradora, de um apetite quase inenarrável.
site: http://www.teatrobrasileiro.com.br/entrevistas/zecelso1.htm
Entrevista - Tarso Genro
ISTOÉ – Quais os grandes perigos para a reeleição do presidente?
Tarso Genro – Que o baixo nível do debate proporcione um afastamento da cidadania do processo eleitoral. Há uma tendência à simplificação quando se debatem determinados assuntos. A simplificação significa acusações de baixo calão. Elas despolitizam o pleito e afastam a população, principalmente as camadas médias e mais desprovidas. Setores em que o presidente tem um acolhimento muito grande.
ISTOÉ – Qual a saída?
Tarso Genro – Não permitir que o debate baixe de nível porque isso favorece a democracia e, na minha opinião, a reeleição.
ISTOÉ – O que o sr. chama de baixar o nível? Explorar o envolvimentodo PT no mensalão?
Tarso Genro – Não se pode transformar a eleição numa espécie de corruptômetro. Caso contrário, vamos reduzir o processo eleitoral a acusações. Por exemplo: a partir de determinados ataques, se começa a discutir compra de uma emenda constitucional para reeleição ou a selvageria e ilegalidades nas privatizações. Não se trata, com isso, de temer um debate sobre ética pública. Mas os grandes problemas sobre esse tema no Brasil derivam da falência do atual sistema político e não apenas do planejamento de meia dúzia de indivíduos. A corrupção no Estado brasileiro é sistêmica. Para que baixemos a taxa de ilegalidade, proveito pessoal em cargos públicos e até mesmo de corrupção, temos que prosseguir no caminho do desenvolvimento, das reformas, da educação, do crescimento econômico e no aprofundamento do controle da sociedade sobre o Estado.
site: http://www.terra.com.br/istoe/1918/entrevista/1918_vermelhas_01.htm
Tarso Genro – Que o baixo nível do debate proporcione um afastamento da cidadania do processo eleitoral. Há uma tendência à simplificação quando se debatem determinados assuntos. A simplificação significa acusações de baixo calão. Elas despolitizam o pleito e afastam a população, principalmente as camadas médias e mais desprovidas. Setores em que o presidente tem um acolhimento muito grande.
ISTOÉ – Qual a saída?
Tarso Genro – Não permitir que o debate baixe de nível porque isso favorece a democracia e, na minha opinião, a reeleição.
ISTOÉ – O que o sr. chama de baixar o nível? Explorar o envolvimentodo PT no mensalão?
Tarso Genro – Não se pode transformar a eleição numa espécie de corruptômetro. Caso contrário, vamos reduzir o processo eleitoral a acusações. Por exemplo: a partir de determinados ataques, se começa a discutir compra de uma emenda constitucional para reeleição ou a selvageria e ilegalidades nas privatizações. Não se trata, com isso, de temer um debate sobre ética pública. Mas os grandes problemas sobre esse tema no Brasil derivam da falência do atual sistema político e não apenas do planejamento de meia dúzia de indivíduos. A corrupção no Estado brasileiro é sistêmica. Para que baixemos a taxa de ilegalidade, proveito pessoal em cargos públicos e até mesmo de corrupção, temos que prosseguir no caminho do desenvolvimento, das reformas, da educação, do crescimento econômico e no aprofundamento do controle da sociedade sobre o Estado.
site: http://www.terra.com.br/istoe/1918/entrevista/1918_vermelhas_01.htm
18.7.06
24.6.06
23.6.06
Viagem aos Jardins do Além-Brasília
Pode-se perceber que aqui é outro lugar, que as pessoas são outras: elas se vestem bem para ir ao supermercado. Nada de roupas caras, mas qualquer coisa como uma ‘pobreza digna e orgulhosa’. As moças vestem suas longas saias jeans, rebuscadas, com cintos coloridos de plástico e sandálias de grandes saltos – que deixam ver o pó que se acumulou entre os dedos, sobre as unhas pintadas, no caminho até o supermercado. (Só a estrada principal é asfaltada). Os cabelos estão lavados e presos. É só lá, de onde eu venho, que uma sandália havaiana leva você ao supermercado, à universidade, ao banco.
(A despreocupação que a riqueza nos traz.)
Entro no supermercado para comprar um suco e um biscoito, enquanto espero a pessoa que vim aqui encontrar. Tudo é tão mais barato!... O pão francês é R$ 0.09! (Lá, no outro lugar, é pelo menos R$ 0,25). Pago com meu cartão de débito um valor que acho ridiculamente baixo. Atrás de mim, na fila, um senhor reclama da promoção dos tabletes de caldo de carne. Na semana passada, a promoção dizia ‘pague 3, leve 4’. Hoje, o pacote é o mesmo, mas o quarto tablete foi substituído por um enfeite de mesa. Ele não quer o enfeite. Ele quer o quarto tablete. É sua única compra.
Volto ao estacionamento onde deixei o carro. Espero lá dentro, comendo biscoito e lendo Pontalis. Um família se aproxima da minha janela aberta. O pai pergunta se eu posso dar a eles uma carona até Brasília. O bebê de colo está doente e precisa ir ao médico (o bebê lacrimeja, tem a cara inchada e o nariz escorre, está nos braços da mãe). Ele explica que pediu carona a outros motoristas mas ninguém está voltando 'para a cidade'. Me disponho a dar a carona, mas explico que só voltarei daí a três horas. Se eles puderem esperar...
O pai insiste, explica que não tem o dinheiro da passagem do ônibus. Abro a bolsa, dentro da carteira tenho duas notas, de idêntico valor. Dou uma a eles, fico com a outra. Faltam ainda 40 centavos. Acho uma moeda de 10 centavos. Continua faltando 30 centavos. Desta vez, é a mãe quem insiste e sua voz tem um tom reivindicatório (e acho que ela está certa na sua reivindicação). Os 30 centavos continuam faltando. Eles vão embora, com os agradecimentos de praxe, que sempre me fazem corar de vergonha: “Muito obrigada, que Deus lhe abençoe”. Prefiro o tom exigente da mãe, me constrange menos do que ser abençoada por Deus na minha miséria.
Há outros carros por aqui, vários. Me parecem luxuosos. Não em si, mas um luxo aqui onde não há asfalto, só terra batida. Destoa como ‘um dedo machucado’. Ou, talvez, como um aparelho de DVD numa casa sem reboco nas paredes. Me pergunto se isso não é mais um dos sintomas da perversidade do capitalismo à brasileira. Depois, me lembro dos versos do Titãs: “A gente não quer só comer/ A gente quer prazer para aliviar a dor”. Me espanto de como é fácil escorregar para posições autoritárias, moralistas, paternalistas: ‘eu sei o que é certo, faça o que eu digo’. Moralismo é tomar minha obsessão pequeno burguesa por segurança econômica e fazer disso a medida do mundo, a medida do que é humano.
Nada disso é ficção.
(A despreocupação que a riqueza nos traz.)
Entro no supermercado para comprar um suco e um biscoito, enquanto espero a pessoa que vim aqui encontrar. Tudo é tão mais barato!... O pão francês é R$ 0.09! (Lá, no outro lugar, é pelo menos R$ 0,25). Pago com meu cartão de débito um valor que acho ridiculamente baixo. Atrás de mim, na fila, um senhor reclama da promoção dos tabletes de caldo de carne. Na semana passada, a promoção dizia ‘pague 3, leve 4’. Hoje, o pacote é o mesmo, mas o quarto tablete foi substituído por um enfeite de mesa. Ele não quer o enfeite. Ele quer o quarto tablete. É sua única compra.
Volto ao estacionamento onde deixei o carro. Espero lá dentro, comendo biscoito e lendo Pontalis. Um família se aproxima da minha janela aberta. O pai pergunta se eu posso dar a eles uma carona até Brasília. O bebê de colo está doente e precisa ir ao médico (o bebê lacrimeja, tem a cara inchada e o nariz escorre, está nos braços da mãe). Ele explica que pediu carona a outros motoristas mas ninguém está voltando 'para a cidade'. Me disponho a dar a carona, mas explico que só voltarei daí a três horas. Se eles puderem esperar...
O pai insiste, explica que não tem o dinheiro da passagem do ônibus. Abro a bolsa, dentro da carteira tenho duas notas, de idêntico valor. Dou uma a eles, fico com a outra. Faltam ainda 40 centavos. Acho uma moeda de 10 centavos. Continua faltando 30 centavos. Desta vez, é a mãe quem insiste e sua voz tem um tom reivindicatório (e acho que ela está certa na sua reivindicação). Os 30 centavos continuam faltando. Eles vão embora, com os agradecimentos de praxe, que sempre me fazem corar de vergonha: “Muito obrigada, que Deus lhe abençoe”. Prefiro o tom exigente da mãe, me constrange menos do que ser abençoada por Deus na minha miséria.
Há outros carros por aqui, vários. Me parecem luxuosos. Não em si, mas um luxo aqui onde não há asfalto, só terra batida. Destoa como ‘um dedo machucado’. Ou, talvez, como um aparelho de DVD numa casa sem reboco nas paredes. Me pergunto se isso não é mais um dos sintomas da perversidade do capitalismo à brasileira. Depois, me lembro dos versos do Titãs: “A gente não quer só comer/ A gente quer prazer para aliviar a dor”. Me espanto de como é fácil escorregar para posições autoritárias, moralistas, paternalistas: ‘eu sei o que é certo, faça o que eu digo’. Moralismo é tomar minha obsessão pequeno burguesa por segurança econômica e fazer disso a medida do mundo, a medida do que é humano.
Nada disso é ficção.
Amoródio às palavras...
Fobia da prisão de uma única linguagem... Falar na linguagem de um grupo, eu aceito. Mas a psicanálise me arrasa quando entra, sem ser convidada, em qualquer lugar, afirmando-se como interpretação de todas as interpretações possíveis. Reivindico para cada um não o refúgio do ininterpretável, mas um território, de fronteiras sememoventes, do ininterpretado. De que adiantou ter nos convidado a soltar a língua, para sujeitá-la a uma outra que não é animada por mais nada a não ser pelo desejo, tão forte, de ditar sua fala: você não está dizendo o que pensa que está, você é o que eu digo.
J.-B. Pontalis, O Amor dos Começos
J.-B. Pontalis, O Amor dos Começos
18.6.06
Desejos são vulcões - resposta de Hilan
Resposta de Hilan Bensusan
A. J., olá.
Obrigado pela cartinha, muito simpática. Te conto logo de cara que atormento eu de montão com estas questões pinicantes que você menciona. Sim, desejos não estão ao alcance das mãos para serem mudados. A política dos desejos é uma espécie de auto-política: nossa autoridade sobre nossos desejos não é a autoridade final - de resto como a nossa autoridade sobre nossos discursos não é a autoridade final. Penso que auto-política é política de subjetividade e o que entra na subjetividade através de nossos corpos é o que faz as pessoas do corpuscrisis, por exemplo, ensaiarem movimentos entre a atenção à emergência dos desejos e a distribuição de privilégios que as normas dos desejos instauram. Nossa subjetividade em um sentido importante não é nossa: ela responde às matrizes de inteligibilidade do que é um sujeito (do que se espera que nós assujeitemos). Mas nós nos tornamos sujeitos nesta matriz.
Nestes dias de corpuscrisis sobrou apenas um tempinho em que comecei a escrever uma coisa que está assim:
1.Os desejos são os vulcões da subjetividade. Postas as ecologias sociais, os instintos que permeiam os demais desejos e cada história pessoal, surgem os desejos: nas brechas entre as paisagens. Nossos desejos são agentes infiltrados do nosso estado no mundo––e são nossos porque estamos condenados a pastoreá-los mesmo sem sermos seus donos. Verdades acerca dos desejos são independentes das nossas crenças em primeira pessoa, mas não são alheios aos caminhos dos nossos pensamentos: não são alheios ao que pensamos porque desejos são produzidos parcialmente pelo mecanismo dos nossos pensamentos––o pensamento é parte do sistema ecológico que produz os desejos. O pensamento deixa pelo chão elementos que produzem a força dos desejos: os desejos não surgem ex-nihilo e nem são naturais. Eles são a confluência dos instintos, dos caminhos do pensamento e dos agenciamentos coletivos. São transformáveis pelo pensamento, mas não são marionetes deles.
2. A transformação dos desejos transita por sua identificação. A identificação requer elementos de terceira pessoa: não há um privilégio da autoridade de primeira pessoa sobre os desejos. Não podemos decidir o que queremos desejar e nem cabe se submeter a facticidade dos desejos. A imagem sartreana da má-fé pela facticidade e pela transcendência inaugura uma auto-política: é preciso uma negociação entre a voz de primeira pessoa e a pressão dos desejos. Entre os desejos que eu me dou conta e os desejos que estão em mim não há uma autoridade suprema: há que se examinar as circunstâncias para determinar qual é o desejo. Porém estas determinações são em parte políticas: auto-políticas. A auto-política gira em torno do pensamento e é uma política de devires: não se trata de um diálogo entre identidades mas entre linhas de fuga dentro de nós. O caminho do pensamento é traçado sobre os desejos que ele encontra no chão––chão que em parte ele produz produzindo matéria-prima para o desejo.
Me preocupo com a política dos desejos há muito tempo e a maneira como penso nisto muda mais ou menos a cada fase da lua. Oscilo bastante. De uma maneira geral penso que a associação entre política e controle faz o dano: entendemos o que não controlamos como além da política. Algo semelhante com o controle e a pedagogia (e aqui Rancière pode ser interessante). Podemos ensinar sem controlar.
Acho que a sexualidade escapa pelos dedos, mas é por isto que a subjetividade é desafiadora. Acredito em um elemento de deixar os desejos emergirem, não mascará-los: eles habitam as fissuras das normas.
Por exemplo, a norma monoamorosa (adoto seu sufixinho mais arredondado) mascara os desejos do outro que é personagem das tuas três opções. Desejo e amor por outras pessoas não indicam sempre prova de desamor. Acho que por trás dos ciúmes existem elementos de normas, elementos de instintos, elementos de preferências. Benjamim me sugere que a política é como sendo o anjo que balança as paisagens. Não enxergo nos vulcões coisa fixa - a natureza é o que nós transformamos sempre por meio da articulação de nichos, sua transformação, sua descontrução. Penso que uma imagem propriamente darwinista da natureza ajuda a entender que ela não e a outra a qual nos adaptamos - ela é feita das marcas deixadas pela história das espécies (por exemplo, da nossa espécie). Acho que tuas três opções são monoamorosas; são opções políticas articuladas neste cenário. Não é um cenário compulsório.
Escrevi duas coisinhas grandes sobre este tema dos desejos e que estão na REF (revista de estudos feministas). Uma foi publicada em 2004 e outra vai sair no próximo número. A de 2004, com a qual já discordo bastante, está no site da REF:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_issuetoc&pid=0104-026X20040001&lng=en&nrm=iso
a segunda é uma tentativa de em parte corrigir o que me pareceu inadequado nesta primeira (mando como anexo). São coisinhas grandotas e não sei se você vai ter a pachorra de ler. De todo modo seria bacana continuar a discussão se você quiser - procurar um 'debate generoso', que expressão bonita!
com afeto, J., fique bem, estamos juntos.
hilan
A. J., olá.
Obrigado pela cartinha, muito simpática. Te conto logo de cara que atormento eu de montão com estas questões pinicantes que você menciona. Sim, desejos não estão ao alcance das mãos para serem mudados. A política dos desejos é uma espécie de auto-política: nossa autoridade sobre nossos desejos não é a autoridade final - de resto como a nossa autoridade sobre nossos discursos não é a autoridade final. Penso que auto-política é política de subjetividade e o que entra na subjetividade através de nossos corpos é o que faz as pessoas do corpuscrisis, por exemplo, ensaiarem movimentos entre a atenção à emergência dos desejos e a distribuição de privilégios que as normas dos desejos instauram. Nossa subjetividade em um sentido importante não é nossa: ela responde às matrizes de inteligibilidade do que é um sujeito (do que se espera que nós assujeitemos). Mas nós nos tornamos sujeitos nesta matriz.
Nestes dias de corpuscrisis sobrou apenas um tempinho em que comecei a escrever uma coisa que está assim:
1.Os desejos são os vulcões da subjetividade. Postas as ecologias sociais, os instintos que permeiam os demais desejos e cada história pessoal, surgem os desejos: nas brechas entre as paisagens. Nossos desejos são agentes infiltrados do nosso estado no mundo––e são nossos porque estamos condenados a pastoreá-los mesmo sem sermos seus donos. Verdades acerca dos desejos são independentes das nossas crenças em primeira pessoa, mas não são alheios aos caminhos dos nossos pensamentos: não são alheios ao que pensamos porque desejos são produzidos parcialmente pelo mecanismo dos nossos pensamentos––o pensamento é parte do sistema ecológico que produz os desejos. O pensamento deixa pelo chão elementos que produzem a força dos desejos: os desejos não surgem ex-nihilo e nem são naturais. Eles são a confluência dos instintos, dos caminhos do pensamento e dos agenciamentos coletivos. São transformáveis pelo pensamento, mas não são marionetes deles.
2. A transformação dos desejos transita por sua identificação. A identificação requer elementos de terceira pessoa: não há um privilégio da autoridade de primeira pessoa sobre os desejos. Não podemos decidir o que queremos desejar e nem cabe se submeter a facticidade dos desejos. A imagem sartreana da má-fé pela facticidade e pela transcendência inaugura uma auto-política: é preciso uma negociação entre a voz de primeira pessoa e a pressão dos desejos. Entre os desejos que eu me dou conta e os desejos que estão em mim não há uma autoridade suprema: há que se examinar as circunstâncias para determinar qual é o desejo. Porém estas determinações são em parte políticas: auto-políticas. A auto-política gira em torno do pensamento e é uma política de devires: não se trata de um diálogo entre identidades mas entre linhas de fuga dentro de nós. O caminho do pensamento é traçado sobre os desejos que ele encontra no chão––chão que em parte ele produz produzindo matéria-prima para o desejo.
Me preocupo com a política dos desejos há muito tempo e a maneira como penso nisto muda mais ou menos a cada fase da lua. Oscilo bastante. De uma maneira geral penso que a associação entre política e controle faz o dano: entendemos o que não controlamos como além da política. Algo semelhante com o controle e a pedagogia (e aqui Rancière pode ser interessante). Podemos ensinar sem controlar.
Acho que a sexualidade escapa pelos dedos, mas é por isto que a subjetividade é desafiadora. Acredito em um elemento de deixar os desejos emergirem, não mascará-los: eles habitam as fissuras das normas.
Por exemplo, a norma monoamorosa (adoto seu sufixinho mais arredondado) mascara os desejos do outro que é personagem das tuas três opções. Desejo e amor por outras pessoas não indicam sempre prova de desamor. Acho que por trás dos ciúmes existem elementos de normas, elementos de instintos, elementos de preferências. Benjamim me sugere que a política é como sendo o anjo que balança as paisagens. Não enxergo nos vulcões coisa fixa - a natureza é o que nós transformamos sempre por meio da articulação de nichos, sua transformação, sua descontrução. Penso que uma imagem propriamente darwinista da natureza ajuda a entender que ela não e a outra a qual nos adaptamos - ela é feita das marcas deixadas pela história das espécies (por exemplo, da nossa espécie). Acho que tuas três opções são monoamorosas; são opções políticas articuladas neste cenário. Não é um cenário compulsório.
Escrevi duas coisinhas grandes sobre este tema dos desejos e que estão na REF (revista de estudos feministas). Uma foi publicada em 2004 e outra vai sair no próximo número. A de 2004, com a qual já discordo bastante, está no site da REF:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_issuetoc&pid=0104-026X20040001&lng=en&nrm=iso
a segunda é uma tentativa de em parte corrigir o que me pareceu inadequado nesta primeira (mando como anexo). São coisinhas grandotas e não sei se você vai ter a pachorra de ler. De todo modo seria bacana continuar a discussão se você quiser - procurar um 'debate generoso', que expressão bonita!
com afeto, J., fique bem, estamos juntos.
hilan
17.6.06
Pode-se educar o desejo?
Carta a Hilan Bensusan, motivada por seu texto 'Mais Confiança?' (está no site: http://corpuscrisis.sarava.org/, em 'palavras')
Oi, Hilan...
Tudo bem? Como você está? Qual o balanço final do ‘corpus-crisis’? Não consegui escapar ao fascínio da copa para participar de outros encontros. Encontrei este endereço de email, espero que você ainda esteja recebendo por aqui. Senão, tento deixar esta minha cartinha – porque é isso, isto aqui não é mais que uma cartinha – no Departamento de Filosofia.
Li um texto seu “Mais confiança?”. (Na verdade, percebo que estou me tornando uma leitora, uma leitora às voltas com seu próprio acanhamento). Como algumas questões ainda estão martelando aqui comigo, pensei que poderia estabelecer esta linha de confiança e me arriscar a lhe mandar estas questões.
Não é exatamente sobre a confiança que eu queria lhe falar – penso na confiança em gesto, com você escrevendo este lindo texto e eu lhe oferecendo algumas palavras (quanto mais darmos, mais podemos dar ainda). Queria conversar sobre o que você chama de praticas poliamóricas (por que não poliamorosas?), os usos subversivos do erotismo, a confiança e desconfiança dentro deste espaço.
Nestes últimos tempos, tenho tendido à psicanálise, como já lhe disse – eu acho. Não suportaria qualquer outra linha da psicologia – RH, por exemplo – que não fosse também um trabalho sobre mim, que não forçasse as minhas concepções durante sua pratica e não exigisse de mim novos posicionamentos éticos. As questões que estou pensando tem, muito, base numa certa compreensão psicanalítica da sexualidade.
Você fala das relações monoamóricas e como elas se articulam à desconfiança (instrumento do mestre): se eu suspeitar – e, aqui, a suspeita é motor – que o outro com quem me relaciono pode se interessar por outra pessoa, devo 1) exigir dele explicações, cobrando sua parte do contrato monoamórico (e sofrer com isso), ou 2) terminar esta ligação imediatamente, sem maiores direitos à explicação (sofrendo), ou mais 3) não dizer nada, manter esta relações, e sofrer horrores pelo que considero uma prova de desamor.
Através da confiança, nas relações poliamóricas, por exemplo, eu posso quebrar roteiros que trazem sofrimento e, mais, balançar os alicerces de formação de poderes nas nossas relações do dia-a-dia. Retomo o que você diz: “Penso que a confiança subverte, cria fissuras, promove rachaduras na casa do mestre.”
Eu posso, por exemplo, ler seu texto e rever meus conceitos sobre em que pessoas eu confio e eu de quais eu desconfio, me perguntando quais são critérios que me pesam: o sexo, a cor da pele, participar do mesmos movimentos que eu (o PT, o movimento contra o ato médico) ou que compartilham os mesmos interesses que eu (a psicanálise, a literatura, a arte de Jenny Holzer). Eu posso refletir e chegar a novas posições naturalmente ou refletir e exigir de mim novas posições porque considero que gestos políticos são importantes.
Mas como fazer isso nas relações amorosas? Como fazer isso no âmbito de nossa sexualidade? Será o desejo também educável?
Não acredito que nossa sexualidade seja desconectada de nosso mundo social – e esta nem é a posição da psicanálise tampouco. Por mais que o ângulo seja de valorização do individual, do micro, do mínimo, sabemos que tudo isso é determinado socialmente, mesmo que os mecanismos nos escapem (serão os discursos determinantes? ou as práticas? será a classe social explicação completa?...)
Erógeno, para a psicanálise, vai ser exatamente aquele ponto que o cuidado parental – materno ou paterno ou de alguém que ocupe estas posições – tocou o corpo do infans; se não há investimento do adulto no corpo infantil não há o estopim que movimenta as pulsões, que as faz circular pelo corpo. A sexualidade também é construída, erigida através destes gestos iniciais.
Mesmo que desamparado diante do adulto, a criança captura, através destes gestos, sua sexualidade confusa e contraditória – e enigmática, por isso, traumática (segundo, mais uma vez, a psicanálise). A sexualidade no sentido amplo que a psicanálise lhe dá: como e onde se dão os investimentos libidinais, onde eles são travados, onde eles são proibidos. Através dos gestos e, mais tarde, das falas, o adulto repassa para a criança suas concepções sobre a sexualidade, muitas vezes atravessada pelos discursos sociais mais poderosos (misóginos, machistas, homofóbicos).
Bom, o que estou tentando dizer: para a psicanálise, a sexualidade vai ser fundada lá na infância, num momento muito inicial, quase mítico, um tanto quanto irresgatável. Essa é a concepção psicanalítica, pode-se pensar de outra forma, pode-se pensar que a sexualidade, de fato, só vai ser fundada na adolescência ou em qualquer outro momento. O que está me interessando aqui é a idéia de que a sexualidade, num plano individual – já que a confiança é também um gesto individual – advém de fatores que desconhecemos. Quem pode dizer o que determina um desejo heterossexual ou um desejo homossexual? Apesar da força dos discursos sociais reguladores como, por exemplo, os discursos homofóbicos, isso não impede que as pessoas tenham e vivam um desejo homossexual. E, desta mesma forma, é possível ler seu texto, pensar na validade dos relacionamentos poliamóricos como algo mais interessante, mais prazeroso e, ainda assim, manter de um relacionamento monoamórico.
Não sei se estou me fazendo entender. O que estou lhe apresentando aqui é um problema que tem me tirado o sono já há algum tempo: sexualidade e ‘ação política’, digamos assim, se encontram? É possível julgar a sexualidade por estes critérios? É possível julgar o desejo?
A sexualidade é o lugar do desconhecido no sujeito. O sujeito se vê desejando algo ou alguém que não gostaria de desejar, fazendo o que seu corpo quer fazer mas que seu intelecto repudia. A sexualidade é responsável por colocar identidade ou, pelo menos, a ilusão de uma identidade coerente, não contraditória, em cheque. E isso tem valor positivo.
Mas se o desejo é desgonvernável, ele nem sempre é subversivo neste desgoverno. Na clinica psicanalítica, como em qualquer outra clinica psicoterapeutica que preze seus compromissos éticos, não há espaço para pedagogia, não há espaço para reeducação ou qualquer espécie de julgamento.
Entretanto, também fora da clinica, não consigo perceber como podemos pensar a sexualidade como passível de ser questionada do mesmo modo que meus preconceitos, confianças e desconfianças. Não sei se estou me fazendo entender. Será que o desejo pode ser educado? O desejo, obviamente, vai se transformando através de nossas experiências, nossas vivências, nossos momentos. Mas de onde vem a sexualidade é tão misterioso, tão insondável... de tal forma que as pedagogias sexuais, por exemplo, na maioria das vezes, tem resultado imprevisíveis, inusitados, incalculáveis (basta ver os escândalos envolvendo padres e menores de idade).
Não quero dizer, de forma alguma, que a sexualidade não deva ser discutida ou que estas discussões são vãs. Nem quero dizer que a psicanálise tenha maior clarividência nestes assuntos que qualquer outra posição – esta é, apenas, a posição que tem me instigado e cada um tem direito de eleger a posição que acredita mais satisfatória. Acredito que os debates; os deslocamentos, mínimos que sejam, dentro das grandes crenças da nossa sociedade (a nossa ‘brasilidade’ que fala da mulher bonita, gostosa, boa de cama, do garanhão, etc); a visibilidade do movimento gay, etc, acho que tudo isso tem um efeito – mas me pergunto: será que os discursos sobre a sexualidade não andam muito mais rápido que a própria sexualidade? Será que a sexualidade não escapa, escorrega pelos dedos, mesmo nestas horas que pensamos outras formas de ligação entre as pessoas, como a confiança num relacionamento poliamorico?
Hilan, reitero aqui que isto são questões que tenho pensado, problemas com os quais me deparo todo os dias e, de forma alguma, uma espécie de disputa onde uma fala se sobreponha e tente calar a outra. Falo isso porque tem me parecido tão difícil nestes últimos tempos achar espaços para um debate generoso...
Acho que é isso. Gostei muito do seu texto, ainda estou pensando sobre os versos Aharon Shabtai, sobre se sentir ‘uma pessoa pela metade’ ao barrar aqueles que estão do outro lado da cerca e sobre como é, muitas vezes, difícil sustentar os ‘lugares de diferença em si’, dos quais fala Audre Lorde.
Beijos,
j.
Oi, Hilan...
Tudo bem? Como você está? Qual o balanço final do ‘corpus-crisis’? Não consegui escapar ao fascínio da copa para participar de outros encontros. Encontrei este endereço de email, espero que você ainda esteja recebendo por aqui. Senão, tento deixar esta minha cartinha – porque é isso, isto aqui não é mais que uma cartinha – no Departamento de Filosofia.
Li um texto seu “Mais confiança?”. (Na verdade, percebo que estou me tornando uma leitora, uma leitora às voltas com seu próprio acanhamento). Como algumas questões ainda estão martelando aqui comigo, pensei que poderia estabelecer esta linha de confiança e me arriscar a lhe mandar estas questões.
Não é exatamente sobre a confiança que eu queria lhe falar – penso na confiança em gesto, com você escrevendo este lindo texto e eu lhe oferecendo algumas palavras (quanto mais darmos, mais podemos dar ainda). Queria conversar sobre o que você chama de praticas poliamóricas (por que não poliamorosas?), os usos subversivos do erotismo, a confiança e desconfiança dentro deste espaço.
Nestes últimos tempos, tenho tendido à psicanálise, como já lhe disse – eu acho. Não suportaria qualquer outra linha da psicologia – RH, por exemplo – que não fosse também um trabalho sobre mim, que não forçasse as minhas concepções durante sua pratica e não exigisse de mim novos posicionamentos éticos. As questões que estou pensando tem, muito, base numa certa compreensão psicanalítica da sexualidade.
Você fala das relações monoamóricas e como elas se articulam à desconfiança (instrumento do mestre): se eu suspeitar – e, aqui, a suspeita é motor – que o outro com quem me relaciono pode se interessar por outra pessoa, devo 1) exigir dele explicações, cobrando sua parte do contrato monoamórico (e sofrer com isso), ou 2) terminar esta ligação imediatamente, sem maiores direitos à explicação (sofrendo), ou mais 3) não dizer nada, manter esta relações, e sofrer horrores pelo que considero uma prova de desamor.
Através da confiança, nas relações poliamóricas, por exemplo, eu posso quebrar roteiros que trazem sofrimento e, mais, balançar os alicerces de formação de poderes nas nossas relações do dia-a-dia. Retomo o que você diz: “Penso que a confiança subverte, cria fissuras, promove rachaduras na casa do mestre.”
Eu posso, por exemplo, ler seu texto e rever meus conceitos sobre em que pessoas eu confio e eu de quais eu desconfio, me perguntando quais são critérios que me pesam: o sexo, a cor da pele, participar do mesmos movimentos que eu (o PT, o movimento contra o ato médico) ou que compartilham os mesmos interesses que eu (a psicanálise, a literatura, a arte de Jenny Holzer). Eu posso refletir e chegar a novas posições naturalmente ou refletir e exigir de mim novas posições porque considero que gestos políticos são importantes.
Mas como fazer isso nas relações amorosas? Como fazer isso no âmbito de nossa sexualidade? Será o desejo também educável?
Não acredito que nossa sexualidade seja desconectada de nosso mundo social – e esta nem é a posição da psicanálise tampouco. Por mais que o ângulo seja de valorização do individual, do micro, do mínimo, sabemos que tudo isso é determinado socialmente, mesmo que os mecanismos nos escapem (serão os discursos determinantes? ou as práticas? será a classe social explicação completa?...)
Erógeno, para a psicanálise, vai ser exatamente aquele ponto que o cuidado parental – materno ou paterno ou de alguém que ocupe estas posições – tocou o corpo do infans; se não há investimento do adulto no corpo infantil não há o estopim que movimenta as pulsões, que as faz circular pelo corpo. A sexualidade também é construída, erigida através destes gestos iniciais.
Mesmo que desamparado diante do adulto, a criança captura, através destes gestos, sua sexualidade confusa e contraditória – e enigmática, por isso, traumática (segundo, mais uma vez, a psicanálise). A sexualidade no sentido amplo que a psicanálise lhe dá: como e onde se dão os investimentos libidinais, onde eles são travados, onde eles são proibidos. Através dos gestos e, mais tarde, das falas, o adulto repassa para a criança suas concepções sobre a sexualidade, muitas vezes atravessada pelos discursos sociais mais poderosos (misóginos, machistas, homofóbicos).
Bom, o que estou tentando dizer: para a psicanálise, a sexualidade vai ser fundada lá na infância, num momento muito inicial, quase mítico, um tanto quanto irresgatável. Essa é a concepção psicanalítica, pode-se pensar de outra forma, pode-se pensar que a sexualidade, de fato, só vai ser fundada na adolescência ou em qualquer outro momento. O que está me interessando aqui é a idéia de que a sexualidade, num plano individual – já que a confiança é também um gesto individual – advém de fatores que desconhecemos. Quem pode dizer o que determina um desejo heterossexual ou um desejo homossexual? Apesar da força dos discursos sociais reguladores como, por exemplo, os discursos homofóbicos, isso não impede que as pessoas tenham e vivam um desejo homossexual. E, desta mesma forma, é possível ler seu texto, pensar na validade dos relacionamentos poliamóricos como algo mais interessante, mais prazeroso e, ainda assim, manter de um relacionamento monoamórico.
Não sei se estou me fazendo entender. O que estou lhe apresentando aqui é um problema que tem me tirado o sono já há algum tempo: sexualidade e ‘ação política’, digamos assim, se encontram? É possível julgar a sexualidade por estes critérios? É possível julgar o desejo?
A sexualidade é o lugar do desconhecido no sujeito. O sujeito se vê desejando algo ou alguém que não gostaria de desejar, fazendo o que seu corpo quer fazer mas que seu intelecto repudia. A sexualidade é responsável por colocar identidade ou, pelo menos, a ilusão de uma identidade coerente, não contraditória, em cheque. E isso tem valor positivo.
Mas se o desejo é desgonvernável, ele nem sempre é subversivo neste desgoverno. Na clinica psicanalítica, como em qualquer outra clinica psicoterapeutica que preze seus compromissos éticos, não há espaço para pedagogia, não há espaço para reeducação ou qualquer espécie de julgamento.
Entretanto, também fora da clinica, não consigo perceber como podemos pensar a sexualidade como passível de ser questionada do mesmo modo que meus preconceitos, confianças e desconfianças. Não sei se estou me fazendo entender. Será que o desejo pode ser educado? O desejo, obviamente, vai se transformando através de nossas experiências, nossas vivências, nossos momentos. Mas de onde vem a sexualidade é tão misterioso, tão insondável... de tal forma que as pedagogias sexuais, por exemplo, na maioria das vezes, tem resultado imprevisíveis, inusitados, incalculáveis (basta ver os escândalos envolvendo padres e menores de idade).
Não quero dizer, de forma alguma, que a sexualidade não deva ser discutida ou que estas discussões são vãs. Nem quero dizer que a psicanálise tenha maior clarividência nestes assuntos que qualquer outra posição – esta é, apenas, a posição que tem me instigado e cada um tem direito de eleger a posição que acredita mais satisfatória. Acredito que os debates; os deslocamentos, mínimos que sejam, dentro das grandes crenças da nossa sociedade (a nossa ‘brasilidade’ que fala da mulher bonita, gostosa, boa de cama, do garanhão, etc); a visibilidade do movimento gay, etc, acho que tudo isso tem um efeito – mas me pergunto: será que os discursos sobre a sexualidade não andam muito mais rápido que a própria sexualidade? Será que a sexualidade não escapa, escorrega pelos dedos, mesmo nestas horas que pensamos outras formas de ligação entre as pessoas, como a confiança num relacionamento poliamorico?
Hilan, reitero aqui que isto são questões que tenho pensado, problemas com os quais me deparo todo os dias e, de forma alguma, uma espécie de disputa onde uma fala se sobreponha e tente calar a outra. Falo isso porque tem me parecido tão difícil nestes últimos tempos achar espaços para um debate generoso...
Acho que é isso. Gostei muito do seu texto, ainda estou pensando sobre os versos Aharon Shabtai, sobre se sentir ‘uma pessoa pela metade’ ao barrar aqueles que estão do outro lado da cerca e sobre como é, muitas vezes, difícil sustentar os ‘lugares de diferença em si’, dos quais fala Audre Lorde.
Beijos,
j.
16.6.06
11.6.06
Homenagen - será? - a algumas desconhecidas...
Veio-lhe logo à mente a imagem. Estava surpreendentemente bela - disse William. Mas a beleza não é tudo. A beleza tinha essa desvantagem - vinha depressa demais, demasiadamente íntegra. Imobilizava a vida - paralisava-a. Esquecia-se das pequenas atribulações, o rubor e a 'palidez, qualquer estranha mudança, qualquer luz ou sombra que tornavam o rosto irreconhecível por um momento e contudo lhe acrescentava uma qualidade que se passava a ver dali por diante. Era mais simples dissimular tudo isso sob a máscara da beleza.Virginia Woolf, Rumo ao Farol
3.6.06
31.5.06
O silêncio da obra
Coloco antes do nome da artista - Jenny Holzer - duas palavras: emoção e intelecção. Penso na emoção de ler a frase sobre o móvel de mármore, uma frase tão freudiana, que vai sacudindo meus afetos um a um (e afeto é, de fato, aquilo que nos afeta). Penso em intelecção porque passa pelas palavras, as atravessa no seu percurso de obra de arte, mas não de uma maneira racionalizante (acredito eu), como se Jenny Holzer fizesse poesia de sua maneira palpável, pegável mesmo, mais que concreta, como a frase-referência aos sonhos da razão de Goya (eu acho também) no outdoor do cinema.
Quando coloco estes dois termos antes do nome da artista, não estou querendo dizer o que a artista faz. Não estou qualificando sua obra, não estou lhe dando nenhum nome, nenhuma palavra - ela tem as suas mesmas e isso lhe basta. Estou lhe dando os meus nomes, as minhas palavras, os efeitos de sua obra sobre mim, o caminho, rasteiro, das associações afetivas, as reverberações que fazem de mim um instrumento oco para a ação da obra.
Penso em meu amigo Matias Monteiro, ele também um artista que já enraizou os efeitos de suas obras, sonhos construídos, sobre mim, que também me forçou a lhe oferecer algumas palavras para falar destes efeitos. Penso no que ele diz: "Se umartista quisesse dizer alguma coisa, ele teria dito". Linguagem e arte são, para Matias, excludentes. A interpretação pesa sobre a obra, tentando cercar seus mistérios, tentando lhe abrir as entranhas e mostrar seu funcionamento. Como Matias, muitas vezes, eu prefiro o silêncio - tarefa difícil demais quando se é viciada em palavras.
Quando coloco estes dois termos antes do nome da artista, não estou querendo dizer o que a artista faz. Não estou qualificando sua obra, não estou lhe dando nenhum nome, nenhuma palavra - ela tem as suas mesmas e isso lhe basta. Estou lhe dando os meus nomes, as minhas palavras, os efeitos de sua obra sobre mim, o caminho, rasteiro, das associações afetivas, as reverberações que fazem de mim um instrumento oco para a ação da obra.
Penso em meu amigo Matias Monteiro, ele também um artista que já enraizou os efeitos de suas obras, sonhos construídos, sobre mim, que também me forçou a lhe oferecer algumas palavras para falar destes efeitos. Penso no que ele diz: "Se umartista quisesse dizer alguma coisa, ele teria dito". Linguagem e arte são, para Matias, excludentes. A interpretação pesa sobre a obra, tentando cercar seus mistérios, tentando lhe abrir as entranhas e mostrar seu funcionamento. Como Matias, muitas vezes, eu prefiro o silêncio - tarefa difícil demais quando se é viciada em palavras.
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