19.5.07

tambor lacaniano

o regente é o pai que instaura a lei entre dezenas de mulheres. a lei é instaurada em língua própria: pra-ga-dá tu-gu-dum pra-ga-dá tu-gu-dum cha-cha cha-cha. isso é sofejar, cantar na voz humana a voz do instrumento. “tam-bor”, diz alguém, separando bem as sílabas, “já está aí, ‘eu vou tocar tam-bor’, é só você ouvir...”

o nome-do-pai é giba ou tutuca – onomatopéico? o nome próprio, o próprio nome-metonímia... entre o surdo e o repique, ele deve “opor a vertigem do aceleramento à vertigem do retarde”, a ordem dos instrumentos ao transe do corpo. (me faz pensar que a diferença entre ordem e obsessão é que a primeira é uma busca estética, um sentido de beleza muito específico, enquanto que a segunda é um evitar da angústia.)

o par de surdos é descendente direto dos tambores sagrados dos rituais religiosos. as batidas vão vibrando nos instrumentos, nas pernas, na caixa torácica, na cabeça, nos fios de cabelo, nas unhas até que a própria respiração se torne, ela também, marcação de tempo e contratempo.

13.5.07

23.4.07


A viagem rejuvenesce as coisas e envelhece a relação consigo.
Michel Foucault, A História da Sexualidade II: O uso dos prazeres

20.4.07

Franklin ganha ação contra Mainardi em 1ª instância

Da folha online: http://www1.folha.uol.com.br/folha/colunas/brasiliaonline/ult2307u149.shtml

"Franklin ganha ação contra Mainardi em 1ª instância
Kennedy Alencar

O ministro da Secretaria de Comunicação Social, Franklin Martins, obteve vitória em primeira instância judicial contra o jornalista da revista "Veja" Diogo Mainardi. Em processo por danos morais na 2ª Vara Cível do Rio de Janeiro, Mainardi foi condenado a pagar R$ 30 mil ao ministro.

O jornalista da revista acusara Franklin de ter beneficiado parentes na contratação pelo serviço público e de ter participado da quebra do sigilo do caseiro Francenildo Costa --este episódio resultou na queda de Antonio Palocci Filho do Ministério da Fazenda no início de 2006.

Mainardi tem o direito de recorrer da sentença."

Com a paranóia habitual, de dar inveja a Olavo de Carvalho, Reinaldo de Azevedo criou uma teia de intrigas para justificar o fato de Kennedy Alencar ter dado a notícia antes dele, para quem quiser ler: http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/ult511u298.shtml

18.4.07

... estávamos, então, finalmente lado a lado, apesar da minha timidez agir atrasando a colisão já em andamento, paralisando o salto – o corpo estacionando no ar antes de bater no chão –, então ela disse alguma coisa, sei que disse alguma coisa porque abriu a boca moveu os lábios apresentou uma fileira infinita de dentes bem brancos apertou o olho direito e me olhou apenas com o esquerdo a sobrancelha subiu, fazendo um arco triangular, sei que disse alguma coisa e exatamente neste momento um grande silêncio aconteceu dentro da minha cabeça, o silêncio das coisas dispersas, antes do verbo prendê-las em sua rede, fui entrando num filme lento e mudo, o silêncio me fazendo pensar, pensar exatamente nos dentes brancos, muito brancos mesmo, quase como se não fossem coisa humana, e eram tantos! como caberiam todos ali dentro?... faziam uma curva sensível e se perdiam na escuridão, quis contá-los enquanto a boca ia se movendo cada vez mais devagar e, dentro do olho esquerdo, parecia luzir uma chama de conhecimento, de consciência, como se o olho dissesse: ‘sim, sim, eu sei, não há como negar, eu até acho graça, não é possível esconder’. soube, neste instante, que estava perdida.


30.3.07

No Brasil, até as coisas certas...

... são feitas de maneira errada. E pelas pessoas erradas.

Do site: Imprensa Marron (http://imprensamarrom.com.br/?p=594)

"A imprensa política está em polvorosa! Finalmente, aconteceu alguma coisa aparentemente relevante. O único problema é que os leitores/ouvintes/telespectadores nem sempre ficam sabendo EXATAMENTE do que se trata.

Vejamos, por exemplo, o UOL. A manchete dada ao “fato do momento” é a seguinte: “TSE Decide que Mandato Pertence ao Partido e Não ao Candidato Eleito”

Ora… “decide”? Que “decisão” foi essa?

Seguinte: NÃO HOUVE PROCESSO ALGUM. Não há “coisa julgada”. Não vale, portanto, como “jurisprudência”. O TSE simplesmente respondeu a uma consulta feita pelo PFL (atual DEM).
Até aí, parece que as coisas estão mais ou menos claras, certo? Erradíssimo! O TSE não tem competência para julgar a cassação de nenhum parlamentar. Quem julga é o STF ou o TJ.

Vamos por partes, o assunto é bem complicado.

Sobre a “Decisão”O TSE não “decidiu” nada, mas única e exclusivamente respondeu a uma consulta. Não se trata de um processo, um caso concreto, ou algo que tenha valor jurisprudencial ou força normativa.

Nada disso. Para piorar, o TSE se manifestou sobre matéria que não é de sua competência.

(Artigos referentes ao assunto no códio eleitoral)

Ou seja, como é mais do que óbvio, o TSE trata de ELEIÇÕES, não de mandatos. Depois de diplomado, o Parlamentar passa a ser julgado pelo STF (ou pelo TJ), e não pelo Tribunal Eleitoral.

A resposta à consulta, portanto, é mais ou menos inócua, já que o TSE não tem competência para decidir acerca daquilo que respondeu. Se algum partido pretende, em cima disso, ‘reaver mandatos’, é preciso procurar o STF ou o TJ, e não o TSE ou TRE.

Vejamos o que diz a Constituição Federal:

“Art. 53. Os Deputados e Senadores são invioláveis, civil e penalmente, por quaisquer de suas opiniões, palavras e votos. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 35, de 2001)
§ 1º Os Deputados e Senadores, desde a expedição do diploma, serão submetidos a julgamento perante o Supremo Tribunal Federal” (grifo nosso)

Ora, resta claríssimo e mais do que expresso que a competência é do STF e não do TSE, para julgar um parlamentar já diplomado.

O Mandato é do Parlamentar, Não do Partido e a “Troca de Partidos” Não é Motivo Para a Perda de Mandato

Sem delongas, vejamos os termos da Constituição Federal:

“Art. 55. Perderá o mandato o Deputado ou Senador:
I - que infringir qualquer das proibições estabelecidas no artigo anterior;
II - cujo procedimento for declarado incompatível com o decoro parlamentar;
III - que deixar de comparecer, em cada sessão legislativa, à terça parte das sessões ordinárias da Casa a que pertencer, salvo licença ou missão por esta autorizada;
IV - que perder ou tiver suspensos os direitos políticos;
V - quando o decretar a Justiça Eleitoral, nos casos previstos nesta Constituição;
VI - que sofrer condenação criminal em sentença transitada em julgado.”

Em primeiro lugar, a Lei Maior diz, expressamente, que o mandato É DO PARLAMENTAR. Afinal, só pode “perder algo” aquele que “tem” esse algo. E o texto é claríssimo. Não falam em “partido perder o mandato” ou “o parlamentar perder o mandato de seu partido”.

A redação é simples e direta: “perderá o mandato o deputado ou senador…”. Logo, o mandato é do parlamentar, e não do partido.

Quanto às hipóteses de perda de mandato, o artigo é TAXATIVO e EXAUSTIVO. Ele encerra TODAS AS POSSIBILIDADES E NENHUMA DELAS É A TROCA DE PARTIDOS.

Muita gente é contra esse negócio de parlamentar trocar 20 vezes de legenda. Eu também sou. O ‘problema’ é que não há dispositivo legal que proíba tal fato.

E não vai ser uma “consulta ao TSE” que mudará a determinação da Constituição Federal - tanto mais, como visto, quando o Tribunal Eleitoral não é competente para julgar esse tipo de caso.

Conclusões
a) foi feita uma ‘consulta’ ao TSE; não houve um ‘processo’, de modo que não há ‘coisa julgada’ e sim uma ‘resposta’ que nem chega a ter valor jurisprudencial;
b) o TSE não tem competência para julgar perda de mandato, tornando a consulta algo praticamente inócuo. Quem julga tal matéria é o STF ou o TJ;
c) a Constituição Federal, na literalidade, atribui ao parlamentar a ‘titularidade’ do mandato (que é quem estaria sujeito à ‘perda’);
d) A “troca de partido” não é motivo para cassação de mandato, haja vista que a Constituição, em artigo taxativo e exaustivo, expõe uma lista de razões para tanto, e a ‘troca’ não faz parte dessa lista.

Além disso, a consulta deixou várias questões em aberto, por exemplo:
- O que acontece com quem for expulso de um partido?
- Como deve proceder o parlamentar que pretende concorrer, na eleição seguinte, por uma legenda diferente daquela pela qual se elegeu?
- Se não há previsão na Constituição, nem em qualquer lei infraconstitucional, qual diploma jurídico servirá de base para a cassação de um parlamentar que trocar de partido?

Enfim, é um debate longo.

Querem mudar a regra? Que mudem da forma correta. Neste caso, o caminho seria uma Emenda Constitucional que incluísse como motivo de cassação a ‘troca de partido no curso do mandato’.

Enquanto não houver isso, ninguém será cassado por trocar de partido. A menos que o STF ou o TJ resolvam ignorar a Constituição Federal.

É uma pena que a imprensa, em sua maioria e na sanha de se fazer populismo editorial, não realize uma reflexão mais profunda sobre esse tema que é eminentemente técnico."

26.3.07

Musicálidos...

Adriana:
Agora sabes que sou verme
Agora, sei da tua luz
Se não notei minha epiderme...
E, nunca estrela eu te supus
Mas, se cantar pudesse um verme
Eu cantaria a tua luz!

Augusto:
E eras assim... Por que não deste
Um raio, brando, ao teu viver?
Não te lembrava. Azul-celeste
O céu, talvez, não pode ser...
Mas, ora! enfim, por que não deste
Somente um raio ao teu viver?

25.2.07

Susto

"O Baphomet". Pierre Klossowski. SP: Max Limonad, 1986. Coleção 'Políticas do Imaginário'.

15.2.07

Ironias do poder

Do Blog do Josias:


"CCJ da nova Câmara tem a cara da velha Câmara
Às voltas com um esforço para melhorar a própria imagem, a Câmara dos Deputados instalou nesta quarta-feira (14) as suas comissões temáticas. A de Constituição e Justiça, a principal, será presidida por Leonardo Picciani (PMDB-RJ), um deputado de 27 anos, em segundo mandato.

A inexperiência não é, contudo, o traço que mais sobressai na biografia de Picciani. O deputado é sócio do pai Jorge Picciani (PMDB-RJ) presidente da Assembléia Legislativa do Rio, em empresas rurais. Os negócios da família encontram-se sob investigação do Ministério Público.

Suspeita-se de fraude fiscal e lavagem de dinheiro. Chamada a entrar em campo, a Receita Federal detectou uma evolução patrimonial de 1.065% dos Picciani. Multou-os em R$ 1,5 milhão.

À frente da CCJ, o deputado Leonardo Picciani terá a atribuição de julgar os recursos apresentados contra decisões da direção da Casa e da Comissão de Ética. A comissão funciona como uma espécie de tribunal de recursos no âmbito da Câmara.

O deputado contará com a ajuda dos colegas que integram a CCJ. Entre eles Paulo Maluf (PP-SP), que já foi preso sob a acusação de desvios de recursos públicos e lavagem de dinheiro, além de José Mentor (PT-SP) e João Paulo Cunha (PT-SP), mencionados na denúncia do mensalão, aquela da “quadrilha dos 40”.

Como se vê, a CCJ da nova Câmara tem a cara da velha Câmara."


Curto-circuito: Serra recompra avião de Alckmin
"Aos pouquinhos, o governador José Serra (PSDB) vai demonstrando que o seu conceito de “choque de gestão” é bem diferente do que foi esgrimido por seu colega de partido, Geraldo Alckmin, na campanha presidencial do ano passado. Leia-se, a propósito, a nota abaixo, publicada na coluna de Mônica Bergamo:

- AeroSerra: Sabe aquele bordão da campanha presidencial de Geraldo Alckmin - "Vou vender o AeroLula"? Terá que sair do dicionário tucano por um bom tempo. É que o avião do governo paulista, que Alckmin se orgulhava de ter vendido, um HS, foi recomprado pelo governo de SP e está sendo usado pelo atual governador, José Serra."

14.2.07

surpresa

"Diário do Grande Sertão: Veredas", Bruna Lombardi. Rio Gráfica, 1986.

4.2.07

Lembrando Jamil Snege

Estou vomitando você, meu bem
Jamil Snege 

Como o vivo vomita o morto, como a ave regurgita o seixo venenoso, como a fêmea rejeita o sêmen indesejado, eu vomito você, amor.

Vomito tuas roupas, tua cintura, teu andar pela sala sem nenhuma ternura. Vomito o tronco tenebroso, tuas olheiras, o cheiro de madeira podre do teu hálito.

Vomito as contas, os dedos, as unhas mal cortadas. Um a um, teus cabelos de metal e veneno vomito, vomito uma a uma as vértebras e as asas de teus sonhos aterrados.

Vomito sem mágoa, sem ódio, pequenos homenzinhos de bile verde com forte odor de ácido clorídrico - asas membranosas, formas orgânicas que reproduzem detalhe por detalhe as cartilagens de teu riso.

Vomito um desejo amarelo, noites de penetração e abismo, anéis de tenra mucosa rompidos. Vomito o gozo dessas noites de pêlos e cheiros, de espamos e fluidos, de marcas de lesma sobre a pele. Vomito oceanos de relíquias e cântigos antigos, castelos, frascos de vidro escuro e umas estranhas enguias agonizadas.

Vomito e vomito, e meu vômito ao riso se mistura, e rio você no vômito com a alegrias de águas puras, de uma fonte interior que explode e jorra pelos orifícios de meu corpo lavando você, expelindo você como o rim expele o cálculo, como a viva ave regurgita o seixo morto, como os anéis comprimem e expulsam o sêmen venenoso.

Rio você, meu bem, e te vomito com a alegria das águas indomadas, amorosa como a mãe noturna que subitamente pare uma aurora.

25.1.07

Notícias de um desastre anunciado

Do site Observatório da Imprensa:
(http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=417JDB003)

A cratera não veio do céu
Por Samuel Lima


"Vinte horas antes da tragédia, na quinta-feira (11/1), um alto funcionário do Metrô, ligado diretamente ao Secretário de Transportes Metroviários, José Luiz Portella, fora informado pelo consórcio de empresas dos riscos de desabamento que ameaçavam trabalhadores, usuários da marginal Pinheiros e moradores da região. As empreiteiras garantiram que as providências tinham sido tomadas, mas se o foram não evitaram que vidas humanas fossem perdidas. Uma informação divulgada na Folha (18/1) deu conta ainda de que as empreiteiras tiveram em torno de 10 minutos para alertar a vizinhança, evacuar ruas e arredores. Mas, a Defesa Civil constatou que o "consórcio" não tinha plano de abandono da área adequado."

Do site de Paulo Henrique Amorim:

(http://conversa-afiada.ig.com.br/materias/410001-410500/410449/410449_1.html)


"Paulo Henrique Amorim – Wagner, primeira coisa, ouvi ontem numa entrevista que você deu aqui na TV Gazeta de São Paulo à minha colega Maria Lídia, que você denunciou um desmonte da equipe técnica do Metrô. O que aconteceu com a equipe técnica do Metrô na gestão Alckmin?

Wagner Fajardo – Olha, infelizmente, não só na gestão Alckmin, desde a primeira gestão do governador Mário Covas, iniciou-se um processo de desmonte das áreas técnicas do Metrô. Em 97 nós tivemos um Programa de Demissão Voluntária que demitiu mais de 400 técnicos e que eram técnicos que acumulavam experiência muito grande nessa área de construção de projeto e de planejamento de Metrô. Depois disso, desse PDV, nós tivemos um processo de que foi de esvaziamento das áreas de construção civil e de montagem, que são áreas fins, que fazem a parte de obras. Sempre com a alegação de que como tinha pouca obra, não precisa ter todo esse pessoal e ficava muito caro para o Estado ter essa equipe já que não tinha muita obra. E também, a partir de 98, começou-se a discutir com o Banco Mundial a linha amarela e o condicionante do Banco Mundial para o fornecimento de financiamento era de que o Metrô e as empresas que pegam financiamento, os Estados que pegam financiamento, teriam que fazer a contratação através do “Turn Key”, que é esse “porteira fechada” que a gente conversou a dois dias atrás. E o outro condicionamento é que o sistema no caso do Metrô teria que ser feito para a iniciativa privada, teria que ser feito com concessão. Essa discussão, então, começou a pautar e a partir daí começou-se a desmontar quase toda... hoje nós não temos mais a gerência de montagem que naquela época contava com mais de 200 trabalhadores, técnicos. Quando a gente fala em trabalhador parece: pessoal administrativo e tal... não era pessoal técnico. Era pessoal altamente especializado."


Da agência Carta Maior:
(http://cartamaior.uol.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=3478)

Do jornalismo dos desastres ao desastre do jornalismo
Bernardo Kucinski

"Foi preciso uma tragédia para ficarmos sabendo que a linha 4 do metrô de São Paulo, uma gigantesca obra de engenharia, estava sendo construída através de um contrato de “porteira fechada”. O preço é fixo. Quanto mais o consórcio construtor economizar, mais ele lucra. Ninguém sabia disso porque a nossa imprensa nunca se interessou por esse contrato. Nunca o discutiu.

(...)

Os paulistanos não sabiam que as obras eram fiscalizadas pelo próprio consórcio. Eles fiscalizavam-se a si mesmos. O Estado, dono da companhia do metrô, não assumiu nenhuma responsabilidade, admitiu o governador José Serra, depois de fugir um dia inteiro dos repórteres. Alckmin está escondido até hoje. E dele os jornais nem falam. Ele, que se apresentava como o melhor “gerente” para o Brasil. "

24.1.07

Musicálidos...

... o dinheiro de quem não dá
é o trabalho de quem não tem…

This is África, e Gostaríamos de informá-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias

Acabamos de assistir a Diamante de Sangue, de Edward Zwick, sobre a guerra civil em Serra Leoa e o contrabando ilegal de diamantes. É interessante notar a quantidade de filmes hollywoodianos e políticos que vêm surgindo, claro que Diamante de Sangue não possui a sutileza, a dimensão trágica e a solidão de O Jardineiro Fiel, por exemplo, esta revolução feita por Fernando Meireles ao livro de John le Carré. Há vários momentos “para chorar e se emocionar” que poderiam, muito facilmente, ter sido cortados. Mas há também Leo di Caprio com um personagem que não faz concessões e Jennifer Connely, como uma jornalista tão inverossímil que chega a ser poético e... Djimon Hounson. Djimon Hounson é a alma do filme, o touro e o toreador.

Diamante de Sangue me deu imagens para imaginar outra situação, me deu imagens para ver o que eu até então apenas imaginava.

A Companhia das Letras já vem lançando, há algum tempo, a coleção “Companhia de Bolso”. Os preços são mais acessíveis, em pequenas edições, com capas simpáticas e nenhuma diminuição na qualidade dos títulos: Nove Noites, de Bernardo Carvalho; O queijo e os vermes, de Carlo Ginzburg; Cisnes Selvagens, de Jung Chang; além de outros autores que não precisam de apresentação – Saramago, Rubem Fonseca, Kafka, Ítalo Calvino…

Passeando numa livraria, vejo o título de um dos livros desta coleção: Gostaríamos de informá-lo que amanhã seremos mortos com nossas famílias, de Philip Gourevitch. O título não me agrada, ele me envia a um poema de Jamil Snege, “Doce primavera”: “Esta semana fomos todos chacinados. Eu, você, nossos vizinhos, a velhinha do segundo andar, o garoto loiro da casa da esquina. Fomos todos massacrados e nossos cadáveres, inchados e perplexos, amanheceram nos passeios, nos monturos, junto às casa derruídas…” Eu não aceitava a disputa entre esta notícia do assassinato de amanhã, estampada no título de um livro, e esta chacina do passado, do livro "O jardim, a tempestado", que amo tanto.

Eu não sabia.

A carta, do dia 15 de abril de 1994, dizia:

“Nosso querido líder, pastor Elizaphan Ntakirutimana,

Como vai? Esperamos que esteja firme em meio a todos esses problemas que estamos enfrentando. Desejamos informar-lhe que soubemos que amanhã seremos mortos junto com nossas famílias. Por isso lhe pedimos que interceda em nosso favor e fale com o prefeito. Acreditamos que, com a ajuda de Deus, que lhe confiou a liderança deste rebanho que está para ser liquidado, sua intervenção será altamente reconhecida, assim como a salvação dos judeus por Ester.

Nós os reverenciamos.”

Entre abril e maio de 1994, cerca de 800 mil pessoas, da etnia tusti, foram assassinadas em Ruanda. Este foi o primeiro saldo, que não deixou de crescer nos meses e anos seguintes, com a evolução do conflito entre Poder Hutu e FPR – Frente Patriótica Ruandesa, e a ditadura de terror da interhamwe no campo de refugiados.

A carta acima foi escrita por pastores tutsis presos em uma igreja e enviada para seu bispo. No dia seguinte, todos os que estavam no complexo adventista de Mugonero foram assassinados a golpes de facão. Os que sobreviviam tinham seus tendões de Aquiles cortados ou as gargantas parcialmente retalhadas, a fim de que a agonia durasse mais tempo. E, grande parte daqueles que mantiveram suas vidas, perderam braços e pernas ou carregam as marcas dos golpes.

O bispo Elizaphan Ntakirutimana havia sugerido aos pastores e às pessoas que procuravam abrigo que ficassem na igreja. Durante algum tempo, policiais ofereceram alguma proteção aos refugiados, mediante pagamento. Mais tarde, o dr Gerard, filho do bispo, levou os policiais embora num carro da milícia hutu. Desesperados, os pastores escreveram a carta ao bispo. No dia 16 de julho, Elizaphan Ntakirutimana e seu filho avisaram aos refugiados que haviam encontrado uma solução: “Vocês devem ser eliminados. Deus não quer mais vocês.”

O ex-bispo fugiu em julho de 1994 para os EUA, onde adquiriu um green card e, por isso, não pôde ser extraditado para Ruanda. Mais tarde, o tribunal internacional instalado em Arusha, esta farsa lenta e cruel representada pela ONU, conseguiu extraditá-lo para Tanzânia. Ele foi julgado e condenado - não consegui encontrar a informação de qual foi sua pena e se ele a está cumprindo. Seu defensor foi um dos mais caros advogados dos Estados Unidos, Ramsay Clark.

Desde a década de 60, massacres contra tutsis eram recorrentes e, no começo da década de 90, os partidários do Poder Hutu falavam abertamente do genocídio futuro. Entre abril e junho de 98, o assassinato desta etnia minoritária (não mais que 15% da população) era atividade legal dentro do território de Ruanda, estimulado pelos generais que tomaram o poder menos de 24 depois da morte do presidente Habyarimana. As listas das pessoas que seriam mortas naquele dia eram recitadas no rádio e, não raro, ruandeses tutsi ouviam seus próprios nomes sendo anunciados. Quando Gourevitch esteve por lá, entre 95 e 98, Ruanda era um país vazio, vazio de gente, tutsi ou hutu, vazios de cachorros que passaram a ser mortos por comerem os cadáveres.

Em 1994, sabia-se tanto sobre o genocídio que acontecia em Ruanda quanto hoje sabemos sobre o massacre étnico que hoje ocorre em Dafur e a participação internacional foi tão nebulosa e desastrosa quanto é a atual ação dos EUA contra os islâmicos da Somália. Todos os apelos jornalísticos ou das tropas internacionais estacionadas em Ruanda foram ignorados. Quando as notícias começaram a surgir, depois de meses de insistência da França de que o massacre era, na verdade, tutsis matando hutus, foi preciso mais de um ano depois de estabilizada a região para que o presidente Clinton e sua secretaria de Estado, Madeleine Albright, admitissem utilizar o termo “genocídio”.

Se, a princípio, esta atitude parece conter alguma lógica – se os africanos decidiram se matar uns aos outros, o problema é deles –, não demora muito para perceber que trata-se de uma tentativa de camuflar a violenta participação do ‘mundo ocidental civilizado’ na origem deste conflito e na maturação da idéia do genocídio.
Há, de fato, diferenças físicas entre tutsi e hutus. Os primeiros são mais altos, os segundos têm rostos mais arredondados, peles mais claras, peles mais escuras, etc. Mas não há como determinar apenas pela aparência quem é o quê – vários mestiços de tutsi e hutus mataram como hutus ou foram assassinados como tutsis. Conhecia-se quem era tutsi ou hutu porque, normalmente, o assassino era o vizinho ou o médico do hospital local ou um cunhado. Mas a idéia de que os tutsis são mais refinados, de origem mais nobre que os hutus, podemos agradecer a Jonh Hanning Speke - aquele que queria descobrir a nascente do Nilo - que chegou a afirmar que os hutus eram descendentes de Cam, amaldiçoado por Noé como “o ultimo dos escravos”.

Em 1897, a Alemanha construiu seus primeiros postos avançados em Ruanda e, depois da Primeira Guerra, foi a Bélgica que se apropriou do país. Mesmo durante o governo indireto alemão, havia uma alternância entre hutus e tutsi, com predominância tutsi; foram os belgas que estabeleceram uma rígida fronteira entre um e outro grupo, ao emitir carteiras de identidade étnicas. Privilégios foram estabelecidos para os tutsti, acompanhados de uma violenta exploração dos hutus, tudo isso baseado em critérios tão científicos quanto “índices nasais” . No fim da década de 50, intelectuais hutus se organizaram em protesto e um deles foi espancado, os hutus tomaram o poder e as ondas de vingança e revide duram até hoje.

Já a lamentável participação da França no massacre em Ruanda é um capítulo a parte. Sustentando o baluarte de defensora dos direitos humanos, de país onde nasceu a democracia e os valores legais modernos, dando hipócritas conselhos aos EUA sobre a invasão ao Iraque, a França mal consegue esconder sua postura neocolonialista grosseira no continente africano. Suspeita-se até mesmo da participação do filho de Miterrand no contrabando de armas para o Poder Hutu durante o genocídio e, ainda hoje, a França acusa o presidente ruandês Paul Kagame do assassinato do presidente Habyarimana que, todos sabem, foi morto por ordens de seus próprios aliados por ser visto como um ‘hutu moderado’. (Dizem também que a naturalista Dian Fossey foi assassinada a mando do séquito da esposa de Habyarimana, Madame Agathe Kanzinga). A grande lição ocidental deixada por alemães, belgas e franceses aos ruandeses foi a de igualar etnia e política, encontrando aí justificativas para o assassínio.

Em qualquer análise política, de qualquer país, mais cedo ou mais tarde, você se depara com situações de dilema, onde qualquer das opções, qualquer dos caminhos tomados terá efeitos poderosos e imprevisiveis no futuro. O problema é que, em Ruanda, os dilemas se apresentam muito imediatamente, sem apontar nenhum caminho: a brutalidade ébria dos genocidáires, mas a submissão dos tutsis à idéia de sua própria morte; os voluntários das organizações internacionais, peões num jogo político muito maior, lutando para manter uma ou outra vida, mas que não esquecerão e nem se perdoarão por terem pisado sobre pilhas de cadáveres; os tutsis repatriados depois de quarenta anos não agüentando mais os relatos dos sobreviventes; os sobreviventes não vendo nos repatriados mais que oportunistas e insensíveis; as prisões pós-genocídio, lotadas por homens, mulheres e crianças, fazem as prisões brasileiras parecerem ilhas da fantasia, mas eram o lugar mais seguro para os que estavam lá ; o código penal de ruanda aceita a pena de morte, fazendo da expressão de justiça – pena capital para aqueles que mataram outras pessoas – possibilidade concreta de outro extermínio (razão pela qual o governo escolheu julgar apenas os que consideravam mandantes, sendo que a maioria deste conseguiu sair de Ruanda com as organizações internacionais).

A análise de Gourevitch é uma análise de desespero, que tenta cobrir todas as possibilidades, tenta explicar como isto aconteceu para que não aconteça novamente, mas já sabendo que uma boa análise não é suficiente para impedir que fatos se repitam. O jornalista seleciona seus ângulos e os combina: a visão histórica, a visão política, o ponto de vista de um estrangeiro em Ruanda até chegar ao horror absoluto de um sujeito qualquer, sem nacionalidade, sem profissão, sem cor de pele, diante do que aconteceu: "…eu frequentemente me lembrava do momento, perto do fim de O coração das trevas, de Conrad, em que o narrador Marlow está de volta à Europa e sua tia, achando-o exaurido, cercava sua saúde de cuidados. ‘Não era minha saúde física que precisava de cuidados’, diz Marlow. ‘Era minha imaginação que precisava de alívio’.”

Em Diamante de Sangue, alguns personagens tem um código para explicar a loucura à sua volta: “TIA - This is África.” Somos todos África, então.

Sites:
http://www.voltairenet.org/article126127.html
http://cartamaior.uol.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=13371

14.1.07

Cinemáticos...

Sugestão: "Mais estranho que a ficção"
Uma fábula delicada, com humor inteligente, sobre dois temas que Hollywood raramente visita: o processo de criação e a consciência da morte. O outro motivo é, claro, Emma Thompson.

8.1.07

Voltando...

Elegia 1938
Carlos Drummond de Andrade

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guardas chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas por entre os mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan
.