28.5.07


"Rafael Barrios, café Quito, rua Bucareli, México, DF, maio de 1977. Que fizemos os real-visceralistas quando Ulisses Lima e Arturo Belano se foram: escrita automática, cadáveres requintados, performances de uma pessoa só sem espectadores, contraintes, escrita a duas mãos, a três mãos, escrita masturbatória (com a direita escrevemos, com a esquerda nos masturbamos, ou ao contrário, no caso de quem é canhoto), madrigais, poemas-romances, sonetos cuja última palavra é sempre a mesma, mensagens de apenas três palavras escritas nas paredes ("Não agüento mais", "Laura te amo" etc.), diários desmedidos, mail-poetry, projective verse, poesia convencional, antipoesia, poesia concreta brasileira (escrita em português de dicionário), poemas policiais em prosa (com extrema economia se conta uma história policial, a última frase a esclarece ou não), parábolas, fábulas, teatro do absurdo, pop art, haicais, epigramas (na realidade, imitações ou variações de Catulo, quase todas de Moctezuma Rodriguez), poesia-desesperada (baladas do Oeste), poesia georgiana, poesia de experiência, poesia beat, apócrifos de bp-Nichol, de John Giorno, de John Cage (A year from Monday), de Ted Berringan, do irmão de Antoninus, de Armand Schwerner (The tablets), poesia letrista, caligramas, poesia elétrica (Bulteau, Messagier), poesia sanguinária (três mortos no mínimo), poesia pornográfica (variantes heterossexual, homossexual e bissexual, independentemente da inclinação particular do poeta), poemas apócrifos dos nadaístas colombianos, horazerianos do Peru, catalépticos do Uruguai, tzanticos do Equador, canibais brasileiros, teatro nô proletário... Até publicamos uma revista... Nos mexemos... Nos mexemos... Fizemos tudo que pudemos... Mas nada ficou bom."

"Os detetives selvagens", de Roberto Bolaño

tambor foucaultiano

Minha irmã me ouviu tocar e disse: “Vi na hora que você estava viajando”. Sem saber, minha irmã percebeu mais que qualquer um.

Assim que o ensaio alcança uma estabilidade, aquele momento em que a música acontece de maneira mais fluida e, mais que o regente, são os instrumentos que chamam-se uns aos outros, é quando eu começo a olhar para cima (as árvores, os pára-quedistas do parque, o centro de convenções; se for noite, o céu) e alço meu vôo particular.

Condição de estar lá é não estar completamente. A música me faz distante. São exatamente as pancadas do surdo que me tranqüilizam, a um preço justo, módico: o distanciamento. Meus pensamentos se transformam em som, em batidas reverberantes, em vibrações, em ecos que se perdem. Estranhamente, nunca serão tão claros quanto nos ensaios de uma banda de percussão com mais de cem membros. Vejo meus pensamentos; enquanto música, eles não se tornam imagens, mas, ainda assim, se tornam visíveis.

Dos 125 músicos, quero ser a última. Fazer parte das vidas anônimas, das sombras que se perdem no fim da multidão, dos sons que desfazem as formas, “fundir-se aos mortos e aos sobreviventes”. Qualquer luz individual me irrita agora; numa banda desta, o destaque, a diferenciação, se positivo para um, é negativo para o conjunto. Leio em “A vida dos homens infames”, de Foucault:

“Pretendi também que estas personagens fossem elas mesmas obscuras; que nada as tivesse predisposto a uma qualquer notoriedade; que não tenham sido dotadas de nenhuma das grandezas como tal estabelecidas e reconhecidas – as do nascimento, da fortuna, da santidade, do heroísmo ou do gênio; que pertencessem àqueles milhões de existências que estão destinadas a não deixar rastro (…)”

Mesmo a mais radical noção de “coletivo” é transformada após esta experiência – e toda a sintonia e sincronia arduamente buscada, mas que deve ser apresentada como natural (o pom equilibra-se ao pim, os repiques sustentam os ritmos, a dobras dobram juntas), desfaz-se quando o campo é o campo da palavra. E, de repente, uma experiência musical torna-se uma experiência política (talvez nunca tenha deixado de ser).

Em meu dicionário pessoal, "moralização" quer dizer querer se tornar dono do discurso do outro, eleger-se como juiz mais indicado para julgar aquela fala que não é sua. Moralizar quer dizer lutar para encarcerar os discursos através da desqualificação dos falantes, ignorando que os discursos devem circular livremente e que, mesmo quando mais arduamente combatidos, eles ainda escorregam pelas proibições. Claro que, individualmente, não pára de crescer a pilha de cadáveres dos que morreram por esta única e exclusiva causa: o amordaçamento radical.

Todos os discursos são legítimos, mesmo aqueles que não são – eis meu credo. Deve-se fortalecer não o poder de silenciá-los, mas a capacidade de escutar e responder a eles. Nenhuma censura é aceitável. Não existe um momento em que a censura seja positiva.

Ao mesmo tempo, nem todas as falas merecem resposta – treino em falar apenas aquele mínimo no qual acredito, esperando que as palavras possam criar uma rede que me sustente, que seu uso parcimonioso me proteja, mas sem ignorar sua falha: a multiplicação infinita de sentidos e sua adesão, imediata, aos discursos que circulam sem dono.

19.5.07

Lit-eróticos...

“Muito cedo em minha vida ficou tarde demais. Quando eu tinha dezoito anos já era tarde demais. Entre dezoito e vinte e cinco anos meu rosto tomou uma direção imprevista. Aos dezoito anos envelheci. Não sei se é assim com todos, nunca perguntei. Creio que alguém já me falou dessa investida do tempo que às vezes nos acomete na primeira juventude, nos anos festejados da vida. Esse envelhecimento foi brutal. Eu o vi apossar-se dos traços um a um, alterar a relação que havia entre eles, aumentando o tamanho dos olhos, fazendo mais triste o olhar, mais definida a boca, marcando a testa com rugas profundas. Não tive medo e observei o envelhecimento do meu rosto com o interesse que teria dedicado a uma leitura. Sabia também que não estava enganada, que um dia ele ficaria mais lento, tomando seu curso normal. As pessoas que haviam me conhecido à época de minha viagem à França, quando eu tinha dezessete anos, ficaram impressionadas quando me reviram dois anos mais tarde, com dezenove. Aquele rosto, novo, eu o conservei. Foi o meu rosto. Envelheceu também, é claro, mas relativamente menos do que devia. Tenho um rosto lacerado por rugas secas e profundas, sulcos na pele. Não é um rosto desfeito, como acontece com pessoas de traços delicados, o contorno é o mesmo mas a matéria foi destruída. Tenho um rosto destruído.”
Marguerite Duras, “O amante”

(Em algum lugar de “O tempo redescoberto”, Proust ataca as pessoas que relem, que ouvem novamente, que repetem suas experiências estéticas. Diz ele que tais pessoas abrem mão de algo muito especial, ao re-fazer: a memória, o processo de buscar, no fundo, as lembranças decantadas. A segunda – ou terceira, ou quarta – leitura abafaria esta lembrança daquilo que sentíamos na leitura inicial. Não sinto isso com este livro, “O amante”, de Marguerite Duras. Em todas as leituras, reencontro a mesma força, original, de quando o li pela primeira vez. Não consigo ler os outros livros de Duras, eles me parecem enjoativos, como um perfume muito forte, ou quase que desnecessários, doses mais fracas daquilo que está em estado bruto em “O amante”. A minha primeira leitura é sempre sôfrega, ansiosa, não respeita o tempo de um livro. As leituras seguintes são leituras de calma e espanto, juntos. São leituras de reencontro. Esta frase, “Muito cedo em minha vida ficou tarde demais”, ainda me espanta, ainda me prende no exigente exercício que é imaginar esta transgressão tão radical do tempo, imaginar o tempo se condensando, em gotas, no rosto de Marguerite Duras...)

tambor lacaniano

o regente é o pai que instaura a lei entre dezenas de mulheres. a lei é instaurada em língua própria: pra-ga-dá tu-gu-dum pra-ga-dá tu-gu-dum cha-cha cha-cha. isso é sofejar, cantar na voz humana a voz do instrumento. “tam-bor”, diz alguém, separando bem as sílabas, “já está aí, ‘eu vou tocar tam-bor’, é só você ouvir...”

o nome-do-pai é giba ou tutuca – onomatopéico? o nome próprio, o próprio nome-metonímia... entre o surdo e o repique, ele deve “opor a vertigem do aceleramento à vertigem do retarde”, a ordem dos instrumentos ao transe do corpo. (me faz pensar que a diferença entre ordem e obsessão é que a primeira é uma busca estética, um sentido de beleza muito específico, enquanto que a segunda é um evitar da angústia.)

o par de surdos é descendente direto dos tambores sagrados dos rituais religiosos. as batidas vão vibrando nos instrumentos, nas pernas, na caixa torácica, na cabeça, nos fios de cabelo, nas unhas até que a própria respiração se torne, ela também, marcação de tempo e contratempo.

13.5.07